domingo, 19 de abril de 2009

Extraindo um quê das cores

Suficientemente tranqüilo, sem o pavor impregnado em sua face, ele entrara em sua sala de estar. Uma sala branca, gélida, sem nada a acrescentar a seu estado de espirito. Mas sua roupa e suas mãos denunciariam imediatamente o terror de sua alma, o medo então seria colocado à tona. Não demoraria muito e ele já começaria a olhar as duas coisas que o amedrontaria. Pingava sangue de suas mãos, sentia o liquido escorrer pelos seus dedos, foi ai que então ele olhou o que estava a fazer cócegas em seu membro. A cor quente provocara um espanto, não conseguia entender o que teria feito pra ter aquilo agora a sua frente.

Olhou agora também a camiseta, a mesma cor, um rubro mais forte de certo, mas a fonte daquelas tonalidades com certeza seria a mesma e ele queria saber de onde teria vindo, por que estava sujo. A verdade é que talvez fosse até inconveniente revelar o mistério. Esse ar de dúvida pintava expressões em seu rosto, uma coisa nova que ele apesar de assustado apreciava. A branquidão de sua casa, de sua camiseta e de sua pele ganhava um colorido, um vermelho quente, um vermelho que o fazia estremecer, um estremecimento que nunca havia sentido antes.

Não importava de onde teria vindo aquele liquido que agora impregnava em sua pele; conseguia enfim acabar com o gelo de sua vida e de sua casa, o colorido mesmo que de uma cor dava outros ares aquela solidão, que antes gélida agora calorosa. Um crime talvez fora o que cometera, mas achava então uma redenção boa: ninguém poderia culpá-lo de querer achar uma nova direção a sua vida; ninguém seria tão ignorante ao ponto de condená-lo. Quem sabe a vida daquele morto nem mais valeria a pena continuá-la, a sua sim era mais importante.

Mesmo que o condenassem, quem retiraria o fato dele ter-se descoberto? Descoberto novos sentidos? Sim! Talvez a condenação fosse útil pra ele descobrir novas coisas. As pessoas se julgam inferiores por terem infringido regras, ele não! Não por não ser pessoa, mas por não considerar-se mais na multidão, não... Agora ele vive!

E foi com esse pensamento que ele se entregara as leis sociais, uma divida que para ele era um credito. A condenação era azul, a tranqüilidade estampava em sua face e graças ao vermelho ele sentiu emoções, coisas inéditas em sua vida. Pena que a casa ainda era branca.

Juliana Roma