domingo, 22 de março de 2009

Nathàlie a Menina com os Olhos do Mar

O caso do mar...

Certo dia, um homem estivera andando pelas águas do mar. O mar sempre sereno e parado, olhava todo instante para o céu e imitava as cores dele.

Fora uma tarde, o homem olhara para o mar, como olhasse os para um ladrão, com tuas mãos, rançou os olhos do mar, colocou em uma caixa e desapareceu.

A partir daquele dia, a cor do mar é apenas a cor de uma tarde de primavera e até hoje, ele chora, levando tuas águas para cima e deixando as cair em cima de si.

Trinta anos depois, no Castelo de Longerville

Morgan fora a virgem no qual desviara o olhar dos homens que a acercara. Tua helênica beleza e teu perfume de seu suor aromatizaram toda tua volta. Branca, tão branca como uma flor virgem, teus cabelos lisos e louros dançavam com o sopro do vento. Tua pele macia e teus olhos castanhos claro, davam uma atmosfera de um anjo que está perdido em outro plano.

Conhecera Clover, um rapaz jovem, elegante, de pouca fama na cidade. Filho de um jardineiro, ajudara o pai no castelo de Morgan. Todos os dias, ele extorquia uma flor do jardim do Castelo de Longerville e entregava para Morgan. Muitas vezes era abortado pelos guardas e saia sendo arrastado para fora do castelo com a flor na mão, enquanto chorando Morgan erguia os braços tentando alcançá-lo.

Em uma noite, fugira do castelo com o jovem Clover. Fora morar em uma cidade há 600 léguas do castelo. Felizes, vivendo junto com a vizinhança, de dia trabalhavam com seu plantio e todo fim de tarde cantavam e dançavam juntos. À noite entravam nos prazeres lascivos do outro.


Sete meses se passaram e a primavera chegou, Morgan então grávida . Todos os dias, ela saía com Clover para vistar o jardim de rosas que coloriam e aromatizavam a vasta varanda de suas casa.


Nascimento de Nathàlie

Entre as tardes de verão, Morgan deu a luz a pequena Nathàlie. Não era muito distinta à mãe. Na mesma tarde do parto, chegam uns soldados com uniforme de Longerville, arrombando a porte da casa de Morgan e Clover, com uma espada um dos soldados decapitou a cabeça do casal, deixando-as uma empilhada na outra. Nathàlie chorara muito e deitada com os olhos abertos, um deles -com uma espada- arrancam os dois olhos dela e assim como o mar, agora, Nathàlie chorara sem teus olhos. Soldados saíram com a cabeça de Clover e Morgan para o rumo do castelo.

Exaltados a multidão corria para ver a criança. Um velho segura-a com toda blandícia e leva-a embora. Chegando em sua casa de apenas um cômodo, enxugou teu pequeno rosto e corpo de sangue, o ancião abre uma pequena caixa com dois olhos, azuis com bordas verdes , costurando com maior cuidado no rosto da criança. Aqueles olhos, tão azuis como da cor de uma tarde de primavera.

Lucas Jabur

quarta-feira, 18 de março de 2009

Era o mofo

Abri a porta. Um primor o meu quarto. Um primor o meu quarto. Meu quarto. Que sono! A imensidão geométrica de faces e vértices alvos. O lume extasiante. O piano na sala. Um primor de piano. Meu piano. A porta. O ganir da porta. A lamaceira. O filho na escola. Divórcio. Catequese. Vertigem. O infinito ruído da porta. O estrondo.
Que susto! A porta colidiu... Colidiu a porta. Colidiu contra os batentes. Eclodiu.
Sístole, diástole. Sístole, diástole. Aula de relaxamento do professor Hamilton. Como era mesmo?

Aaaaah... Que sono... Que quarto! ... O quarto, o quarto... Ó, quarto!
Passos de madeira. Negruras na paisagem.
Silvicultura granular. Afasia. Que horror! Que horror! Fungos... aqueles fungos...
maculavam o frescor das paredes lisas. Era vida. Era praga. Era vida. Era praga.
Desmaiou.

...
- Meu amor...
A pausa de um a cento e trinta séculos.
- Que foi?
A voz vinha de dimensões longínquas. Nunca alcançou seu destino, pobre voz, deplorável voz, onda mecânica, nunca atravessou o labirinto de uma cóclea humana. É tarde. A voz molhada das luvas de borracha. A cozinha. Maquina de lavar. O cheiro do piano envernizado. Os fungos. O timbre dos fungos.
- Precisamos dedetizar a casa.

Elliot Scaramal

terça-feira, 10 de março de 2009

Acho que encontrando um caminho

Sabe quando você não sabe que rumo tomar, mas você sabe que o caminho que está percorrendo é o errado? Então; era nisso que ele passava as tardes pensando ou pelo menos aquela tarde. A verdade é que ele estava insatisfeito, tudo estava desagradável. O trabalho era ruim e estudar para conseguir um emprego melhor era uma péssima idéia na condição em que se encontrava.

Eu não estava numa situação muito melhor que a de meu amigo; os dois desiludidos com a vida que estávamos levando, caminhávamos por horas sem dizer uma palavra um ao outro, cada um mergulhado em seu tormento. No fim de cada caminhada sentávamos em um bar, o dono do estabelecimento, nosso amigo, sentava conosco e nos escutava, escutava cada reclamação e pessimismo e digo que não eram poucos. A verdade é que reclamávamos demais e hoje posso dizer isso com a maior certeza. Nosso amigo, o dono do barzinho, sempre paciente, dizia sempre a mesma coisa, talvez por desprezo, talvez por não ter nada pra dizer mesmo, mas hoje acho que ele sentia angústia de nos ver naquela mísera situação; por isso falava sempre a mesma coisa, tentando fazer com que nós absorvêssemos aquela idéia, a frase era assim: “ A única coisa que vocês precisam é de um sonho, um motivo pra tocar a vida”.

Ah, na hora em que ele dizia isso nós dois já estávamos muito bêbados, e nada mais entrava em nossa cabeça, capaz que aquela altura nem escutássemos mais, tamanha era a bebedeira. Essa frase sempre passava despercebida e quem sabe por isso não tomamos vergonha e encaramos a vida a tempo dos dois serem salvos. O fato é que cada palavra dita ecoava no bar, ninguém dava a menor importância aos três bêbados.

A situação de meu amigo era péssima e naquela tarde por mais que caminhássemos nada amenizava nosso desinteresse por nossas vidas. Confesso que já estava caindo em tentação pelo conformismo, para mim não havia nada melhor que entender a situação e “vivê-la”. Mas não, meu amigo dizia que esse pensamento era pra quem não tinha “sangue correndo nas veias”, que melhor que outros ditarem sua vida seria dar um fim a ela. Foi ai que perguntei se ele realmente tava disposto a fazer isso; e como alguém que finge não te ouvir ou entender, ele me indagou: fazer o quê?

- Nada não, esquece. Nessa hora vi que ele não estava levando avante aquela idéia; isso confesso, que me deixou instigado, com raiva, não entendi o motivo pra ele me dizer aquelas palavras se não fosse pra ele mesmo cumpri-las. Fiquei pensando se ele estava com a intenção de me manipular, de fazer com que eu morresse. O meu ódio por ele foi crescendo. Ingrato, sempre dei o melhor de mim pra nossa amizade e agora ele me vem com essa idéia obscura de me matar. Miserável! Não ele não tinha o direito de me dizer aquilo, à medida que eu só queria não mais ser solitário e preso em meus pensamentos, e não em um sonho, um futuro.

Bem, naquela tarde tomado dessa raiva, percebi que meu amigo não tirou as mãos dos bolsos desde que chegamos ao bosque e não parava de apalpar o bolso esquerdo, justo o que estava ao meu lado. Não agüentei e perguntei o que ele tinha na mão esquerda; não houve resposta; o que só aumentou minha ira. Comecei então a observar, tinha mais ou menos uns cinco centímetros e com certeza tinha uma ponta, disso tenho completa certeza já que tão absorto em seus pensamentos meu amigo chegou a furar seu bolso. Seria então um canivete? Essa idéia não me saiu da cabeça. Ele iria mesmo me matar? E seria hoje? Pensei em ir embora, mas ele com certeza acharia estranho e poderia assim mesmo ir me visitar em minha casa e do mesmo modo me assassinar. Decidi então ficar e encará-lo, se viesse pra cima de mim, nós iríamos lutar, feito dois selvagens.

Agora ele segurava com força o objeto e pra minha surpresa começou a chorar, sentou-se no banco e dado de incompreensão também me sentei; não tirei os olhos de seu bolso, que continuava ao meu lado. Ele então passou a falar e falar, sem pausas; um pensamento recitado em voz alta com certeza, talvez pra tentar organizar as idéias; foi quando uma palavra me chamou a atenção “morte”, “morte”, repetia isso constantemente. A minha ou a sua? Era tudo tão incompreensível, suas palavras, seu choro, seu desespero. Não queria ouvir mais nada e suas ultimas palavras daquele pensamento ridículo foram: O foi torna a ser, o que é pede existência, o palpável é nada, o nada assume essência. Nessa hora soquei-lhe a cara, arranquei o canivete de seu bolso; sim era um canivete! E minhas palavras foram: Se alguém é pra morrer aqui que seja você, seu miserável!

E antes de morrer ele ainda me disse: Obrigado, meu amigo, me faltava coragem para tal feito, sabia que podia contar com você; só não se esqueça agora das palavras de nosso amigo do bar! Que palavras? Do que estava falando? Pensei que fosse um bêbado resmungão igual a nós. E percebendo um tom interrogativo em minha face ele repetiu a frase do bêbado.

Agora eu, preso nessa cela, pensando naquela frase do sonho, decidi voltar a criar meus sonhos, entendi minha situação. Agora posso viver meus sonhos, encontrei meu lugar e que lindo que é sonhar só me custa tempo e tempo aqui eu tenho de sobra. Agora sou alguma coisa e perdi minha existência, vivo do nada e faço do nada minha essência.

Juliana Roma