domingo, 19 de abril de 2009

Extraindo um quê das cores

Suficientemente tranqüilo, sem o pavor impregnado em sua face, ele entrara em sua sala de estar. Uma sala branca, gélida, sem nada a acrescentar a seu estado de espirito. Mas sua roupa e suas mãos denunciariam imediatamente o terror de sua alma, o medo então seria colocado à tona. Não demoraria muito e ele já começaria a olhar as duas coisas que o amedrontaria. Pingava sangue de suas mãos, sentia o liquido escorrer pelos seus dedos, foi ai que então ele olhou o que estava a fazer cócegas em seu membro. A cor quente provocara um espanto, não conseguia entender o que teria feito pra ter aquilo agora a sua frente.

Olhou agora também a camiseta, a mesma cor, um rubro mais forte de certo, mas a fonte daquelas tonalidades com certeza seria a mesma e ele queria saber de onde teria vindo, por que estava sujo. A verdade é que talvez fosse até inconveniente revelar o mistério. Esse ar de dúvida pintava expressões em seu rosto, uma coisa nova que ele apesar de assustado apreciava. A branquidão de sua casa, de sua camiseta e de sua pele ganhava um colorido, um vermelho quente, um vermelho que o fazia estremecer, um estremecimento que nunca havia sentido antes.

Não importava de onde teria vindo aquele liquido que agora impregnava em sua pele; conseguia enfim acabar com o gelo de sua vida e de sua casa, o colorido mesmo que de uma cor dava outros ares aquela solidão, que antes gélida agora calorosa. Um crime talvez fora o que cometera, mas achava então uma redenção boa: ninguém poderia culpá-lo de querer achar uma nova direção a sua vida; ninguém seria tão ignorante ao ponto de condená-lo. Quem sabe a vida daquele morto nem mais valeria a pena continuá-la, a sua sim era mais importante.

Mesmo que o condenassem, quem retiraria o fato dele ter-se descoberto? Descoberto novos sentidos? Sim! Talvez a condenação fosse útil pra ele descobrir novas coisas. As pessoas se julgam inferiores por terem infringido regras, ele não! Não por não ser pessoa, mas por não considerar-se mais na multidão, não... Agora ele vive!

E foi com esse pensamento que ele se entregara as leis sociais, uma divida que para ele era um credito. A condenação era azul, a tranqüilidade estampava em sua face e graças ao vermelho ele sentiu emoções, coisas inéditas em sua vida. Pena que a casa ainda era branca.

Juliana Roma

domingo, 22 de março de 2009

Nathàlie a Menina com os Olhos do Mar

O caso do mar...

Certo dia, um homem estivera andando pelas águas do mar. O mar sempre sereno e parado, olhava todo instante para o céu e imitava as cores dele.

Fora uma tarde, o homem olhara para o mar, como olhasse os para um ladrão, com tuas mãos, rançou os olhos do mar, colocou em uma caixa e desapareceu.

A partir daquele dia, a cor do mar é apenas a cor de uma tarde de primavera e até hoje, ele chora, levando tuas águas para cima e deixando as cair em cima de si.

Trinta anos depois, no Castelo de Longerville

Morgan fora a virgem no qual desviara o olhar dos homens que a acercara. Tua helênica beleza e teu perfume de seu suor aromatizaram toda tua volta. Branca, tão branca como uma flor virgem, teus cabelos lisos e louros dançavam com o sopro do vento. Tua pele macia e teus olhos castanhos claro, davam uma atmosfera de um anjo que está perdido em outro plano.

Conhecera Clover, um rapaz jovem, elegante, de pouca fama na cidade. Filho de um jardineiro, ajudara o pai no castelo de Morgan. Todos os dias, ele extorquia uma flor do jardim do Castelo de Longerville e entregava para Morgan. Muitas vezes era abortado pelos guardas e saia sendo arrastado para fora do castelo com a flor na mão, enquanto chorando Morgan erguia os braços tentando alcançá-lo.

Em uma noite, fugira do castelo com o jovem Clover. Fora morar em uma cidade há 600 léguas do castelo. Felizes, vivendo junto com a vizinhança, de dia trabalhavam com seu plantio e todo fim de tarde cantavam e dançavam juntos. À noite entravam nos prazeres lascivos do outro.


Sete meses se passaram e a primavera chegou, Morgan então grávida . Todos os dias, ela saía com Clover para vistar o jardim de rosas que coloriam e aromatizavam a vasta varanda de suas casa.


Nascimento de Nathàlie

Entre as tardes de verão, Morgan deu a luz a pequena Nathàlie. Não era muito distinta à mãe. Na mesma tarde do parto, chegam uns soldados com uniforme de Longerville, arrombando a porte da casa de Morgan e Clover, com uma espada um dos soldados decapitou a cabeça do casal, deixando-as uma empilhada na outra. Nathàlie chorara muito e deitada com os olhos abertos, um deles -com uma espada- arrancam os dois olhos dela e assim como o mar, agora, Nathàlie chorara sem teus olhos. Soldados saíram com a cabeça de Clover e Morgan para o rumo do castelo.

Exaltados a multidão corria para ver a criança. Um velho segura-a com toda blandícia e leva-a embora. Chegando em sua casa de apenas um cômodo, enxugou teu pequeno rosto e corpo de sangue, o ancião abre uma pequena caixa com dois olhos, azuis com bordas verdes , costurando com maior cuidado no rosto da criança. Aqueles olhos, tão azuis como da cor de uma tarde de primavera.

Lucas Jabur

quarta-feira, 18 de março de 2009

Era o mofo

Abri a porta. Um primor o meu quarto. Um primor o meu quarto. Meu quarto. Que sono! A imensidão geométrica de faces e vértices alvos. O lume extasiante. O piano na sala. Um primor de piano. Meu piano. A porta. O ganir da porta. A lamaceira. O filho na escola. Divórcio. Catequese. Vertigem. O infinito ruído da porta. O estrondo.
Que susto! A porta colidiu... Colidiu a porta. Colidiu contra os batentes. Eclodiu.
Sístole, diástole. Sístole, diástole. Aula de relaxamento do professor Hamilton. Como era mesmo?

Aaaaah... Que sono... Que quarto! ... O quarto, o quarto... Ó, quarto!
Passos de madeira. Negruras na paisagem.
Silvicultura granular. Afasia. Que horror! Que horror! Fungos... aqueles fungos...
maculavam o frescor das paredes lisas. Era vida. Era praga. Era vida. Era praga.
Desmaiou.

...
- Meu amor...
A pausa de um a cento e trinta séculos.
- Que foi?
A voz vinha de dimensões longínquas. Nunca alcançou seu destino, pobre voz, deplorável voz, onda mecânica, nunca atravessou o labirinto de uma cóclea humana. É tarde. A voz molhada das luvas de borracha. A cozinha. Maquina de lavar. O cheiro do piano envernizado. Os fungos. O timbre dos fungos.
- Precisamos dedetizar a casa.

Elliot Scaramal

terça-feira, 10 de março de 2009

Acho que encontrando um caminho

Sabe quando você não sabe que rumo tomar, mas você sabe que o caminho que está percorrendo é o errado? Então; era nisso que ele passava as tardes pensando ou pelo menos aquela tarde. A verdade é que ele estava insatisfeito, tudo estava desagradável. O trabalho era ruim e estudar para conseguir um emprego melhor era uma péssima idéia na condição em que se encontrava.

Eu não estava numa situação muito melhor que a de meu amigo; os dois desiludidos com a vida que estávamos levando, caminhávamos por horas sem dizer uma palavra um ao outro, cada um mergulhado em seu tormento. No fim de cada caminhada sentávamos em um bar, o dono do estabelecimento, nosso amigo, sentava conosco e nos escutava, escutava cada reclamação e pessimismo e digo que não eram poucos. A verdade é que reclamávamos demais e hoje posso dizer isso com a maior certeza. Nosso amigo, o dono do barzinho, sempre paciente, dizia sempre a mesma coisa, talvez por desprezo, talvez por não ter nada pra dizer mesmo, mas hoje acho que ele sentia angústia de nos ver naquela mísera situação; por isso falava sempre a mesma coisa, tentando fazer com que nós absorvêssemos aquela idéia, a frase era assim: “ A única coisa que vocês precisam é de um sonho, um motivo pra tocar a vida”.

Ah, na hora em que ele dizia isso nós dois já estávamos muito bêbados, e nada mais entrava em nossa cabeça, capaz que aquela altura nem escutássemos mais, tamanha era a bebedeira. Essa frase sempre passava despercebida e quem sabe por isso não tomamos vergonha e encaramos a vida a tempo dos dois serem salvos. O fato é que cada palavra dita ecoava no bar, ninguém dava a menor importância aos três bêbados.

A situação de meu amigo era péssima e naquela tarde por mais que caminhássemos nada amenizava nosso desinteresse por nossas vidas. Confesso que já estava caindo em tentação pelo conformismo, para mim não havia nada melhor que entender a situação e “vivê-la”. Mas não, meu amigo dizia que esse pensamento era pra quem não tinha “sangue correndo nas veias”, que melhor que outros ditarem sua vida seria dar um fim a ela. Foi ai que perguntei se ele realmente tava disposto a fazer isso; e como alguém que finge não te ouvir ou entender, ele me indagou: fazer o quê?

- Nada não, esquece. Nessa hora vi que ele não estava levando avante aquela idéia; isso confesso, que me deixou instigado, com raiva, não entendi o motivo pra ele me dizer aquelas palavras se não fosse pra ele mesmo cumpri-las. Fiquei pensando se ele estava com a intenção de me manipular, de fazer com que eu morresse. O meu ódio por ele foi crescendo. Ingrato, sempre dei o melhor de mim pra nossa amizade e agora ele me vem com essa idéia obscura de me matar. Miserável! Não ele não tinha o direito de me dizer aquilo, à medida que eu só queria não mais ser solitário e preso em meus pensamentos, e não em um sonho, um futuro.

Bem, naquela tarde tomado dessa raiva, percebi que meu amigo não tirou as mãos dos bolsos desde que chegamos ao bosque e não parava de apalpar o bolso esquerdo, justo o que estava ao meu lado. Não agüentei e perguntei o que ele tinha na mão esquerda; não houve resposta; o que só aumentou minha ira. Comecei então a observar, tinha mais ou menos uns cinco centímetros e com certeza tinha uma ponta, disso tenho completa certeza já que tão absorto em seus pensamentos meu amigo chegou a furar seu bolso. Seria então um canivete? Essa idéia não me saiu da cabeça. Ele iria mesmo me matar? E seria hoje? Pensei em ir embora, mas ele com certeza acharia estranho e poderia assim mesmo ir me visitar em minha casa e do mesmo modo me assassinar. Decidi então ficar e encará-lo, se viesse pra cima de mim, nós iríamos lutar, feito dois selvagens.

Agora ele segurava com força o objeto e pra minha surpresa começou a chorar, sentou-se no banco e dado de incompreensão também me sentei; não tirei os olhos de seu bolso, que continuava ao meu lado. Ele então passou a falar e falar, sem pausas; um pensamento recitado em voz alta com certeza, talvez pra tentar organizar as idéias; foi quando uma palavra me chamou a atenção “morte”, “morte”, repetia isso constantemente. A minha ou a sua? Era tudo tão incompreensível, suas palavras, seu choro, seu desespero. Não queria ouvir mais nada e suas ultimas palavras daquele pensamento ridículo foram: O foi torna a ser, o que é pede existência, o palpável é nada, o nada assume essência. Nessa hora soquei-lhe a cara, arranquei o canivete de seu bolso; sim era um canivete! E minhas palavras foram: Se alguém é pra morrer aqui que seja você, seu miserável!

E antes de morrer ele ainda me disse: Obrigado, meu amigo, me faltava coragem para tal feito, sabia que podia contar com você; só não se esqueça agora das palavras de nosso amigo do bar! Que palavras? Do que estava falando? Pensei que fosse um bêbado resmungão igual a nós. E percebendo um tom interrogativo em minha face ele repetiu a frase do bêbado.

Agora eu, preso nessa cela, pensando naquela frase do sonho, decidi voltar a criar meus sonhos, entendi minha situação. Agora posso viver meus sonhos, encontrei meu lugar e que lindo que é sonhar só me custa tempo e tempo aqui eu tenho de sobra. Agora sou alguma coisa e perdi minha existência, vivo do nada e faço do nada minha essência.

Juliana Roma

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ao amor da minha vida

Que beleza, que corpo, que perfume!
Perfeita, linda, me apaixonei logo que a vi
Quando a toquei, calor tão grande senti
E agora as outras, não passam de azedume

Que martírio!Quero tê-la novamente
Sozinhos, se amando num cantinho
Vou despi-la, e te fazer muito carinho
E te comer... Saboreando-a lentamente

Meu Deus! Que maravilha!
Sua massa... Seu recheio,
Frango, catupiry e ervilha!

Sim, por você eu até mataria
E de nada terei receio
Minha coxinha de padaria! [Da quitandinha]

Germano Martins

Na mesa da frente

Sentado ele esperava algo; calmamente olhava as pessoas ao redor. A sua frente estava, ela se insinuava sem nenhum pudor. Havia muitas e ele então via cada detalhe da mulher; seus seios demasiadamente murchos atraíram a atenção do homem, seus lábios ressecados, o cabelo um tanto que oleoso, algumas voltas de seu corpo que escapuliam da camisa; tudo, toda essa combinação clamava pela atenção do homem.

Como que hipnotizado ele não tirava os olhos da moça e ela meio que gratificada pela atenção, colocou os cotovelos sobre a mesa e com os braços apertou os seios, esses agora espremidos aparentavam algum volume. A sedução cada vez mais induzia o homem a deleitar os olhares àquela feia dama.

Intrigada com o que estava a se passar na cabeça dele, ela continuava a espremer o seio e agora com o outro braço escondia um pouco seu rosto, a mão tampava um de seus olhos, assim não mostrava mais a vesguice, mesmo tendo a certeza que ele já houvesse visto aquele defeito. Como se odiava, como tinha esquecido a coisa que mais odiava em seu corpo? Agora já perdendo as esperanças de conquistar o homem, ela solta os seios e abaixa a cabeça e num choro silencioso suas lágrimas começam a escorrer em seu rosto e a pingar uma a uma no chão.

O homem sabendo do mal que causara, começou a olhar ela com um olhar de piedade, não queria que ela se sentisse mal, se pelo menos ela soubesse- pensava consigo. Sentado ele fazia barulho para que ela levantasse a cabeça e olhasse pra ele, precisava vê-la chorar; seu rosto úmido como seria? Sua comida finalmente chega, não precisava mais esperar, pelo menos aquilo não, agora aguardava olhar da moça e pelo visto ela não estava disposta a oferecer o que desejava.

De repente num súbito ela levanta a cabeça. Perfeito! Perfeita! Pelo visto ela não havia desistido dele e jogo de sedução recomeça. Ele continua a olha-a, agora com mais interesse. O desejo era aparente em suas faces e com tamanha vontade ele cria coragem e se levanta. Mancando ele vai se aproximando da mesa da mulher. Sim uma perna era menor que a outra e seu corpo era torto. Sim, o homem também tinha defeito e talvez por isso aquela mulher chamasse a sua atenção.

À medida que ele aproximava-se da mesa, ela arregalava os olhos e abria a boca, nem acreditava que aquele homem, aquele que a olhava com tamanha atenção era daquele jeito, torto e coxo. De repente ele para e com um olhar indignado vê que a mulher saíra correndo. Mas por quê? Como? Parecia que ela o queria. Estava gostando de perceber que alguém ainda o seduzia. Agora que ela fora embora ele quem chorava, sentou-se na mesa dela e abaixou a cabeça, decidia ali não mais compadecer a nenhuma luxuria.

Juliana Roma

Cordel exstante

Desligou a televisão, calçou os sapatos rapidamente, pegou o dinheiro e passou a maquiagem. Estava atrasada. Teria agora que enfrentar a fila para ver o espetáculo. Ficou triste, desse jeito perderia seu programa preferido da televisão. Não desistira de ir hoje. Seria muito divertido, juntara muito mais dinheiro do que das vezes anteriores, dessa vez veria a cena mais vezes.

Trancou a porta e saiu. Chegando, era a última da fila, iria demorar. Não era mais a última, havia haviam chegado mais três pessoas para o espetáculo. A espera estava maçante. Começou então a conversar com as várias pessoas que também estavam esperando. O assunto era o espetáculo. As pessoas perguntavam se o homem iria agüentar até a vez delas. A resposta era sempre a mesma: - Claro que sim! Estamos pagando; ele tem que agüentar.

Ouviam-se gritos que vinham lá de dentro da sala. Uma senhora perguntou que tipo de espetáculo era; era sua primeira vez e queria saber se valeria a pena pagar para vê-lo. A mulher replicou: - Não leu o cartaz? Essa é a maior diversão que uma pessoa pode ter. Então a senhora lê o cartaz: Cintada a partir de R$2,00. Não acreditava no que estava lendo. Perguntou se era mesmo aquilo que ela veria. A mesma mulher que replicou, respondeu que sim, que era exatamente aquilo.

Chegou a vez da senhora, tira da bolsa R$4,00, isso dava para duas cintadas. O homem já estava sangrando. Amarrado e amordaçado, ele não reclamava. A senhora mesmo assim não teve dó, entregou o dinheiro e deu duas cintadas no homem, depois jogou o cinto no chão, para a próxima pessoa. Saiu da sala. Encontrou a mulher que respondera as suas perguntas, prometeu a ela que voltaria, havia adorado o espetáculo.

Então, a vez da mulher chegara. Tira da bolsa uma luva e os R$50,00. Poe a luva, pega o cinto cheio de sangue e dá início ao espetáculo. Ouve os suspiros do homem. Larga o cinto no chão, reclama não ter mais dinheiro. Vai embora. Durante seu caminho de volta, um homem que também estava no espetáculo chama ela, ela vira-se e ele conta que o homem morrera, assim que saíra da sala.

Volta pra casa, liga a televisão e torce para que haja outro homem para a diversão de seu sábado à noite.

Juliana Roma

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Homenageando Camões

Soneto

“Camões era um cara legal”,
É pra dizer isso que eu faço,
Preguiçoso em meu regaço
Um soneto sem uma moral.

Ele era um cara intelectual,
Devia ser um cara devasso,
Certeza que escrevia bebaço!
Devia adorar um sexo grupal.

Na cova deve tar revoltado,
Remexendo com tal heresia,
Mas cara, sei que não é igual,

Mas olhe, é ao menos rimado!
E é pra dizer com muita alegria:
“Camões era um cara legal”.

Felipe Barbosa

Esdrúxulo, porém cortês

C
A
M
Õ

E
S ,
V
A

L
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V
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I !

Elliot Scaramal

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A arte é um laissez-faire - A obra maldita de Antônio de campos

Soneto de sinceridade

Já tentei, de vários jeitos,
Dizer-lhe o quanto a amo.
Porém, preso em meu açamo
De carranca, fiz-me afeito

De te desdenhar. Mas agora
Que só me resta ser sincero,
Já se apropinqua o outrora
E eu não sei se ainda quero

Vomitar qualquer verdade.
Não sei se deveras queres,
Também, ouvir a rotulagem

Destes meus anseios reles,
Que não fruem de sinceridade.
São só jogos de linguagem.

Ao fantasma de Manuel Bandeira

Enquanto o fogo quente e cru
Das cinzas queimam-me o olhar.
Peço para que, ao menos no bar,
O senhor fique quieto. Mas tu...

Falando-me da mesma mulher,
Pergunta-me, ao som do luthier:
"É mesmo ela que você quer?"
Ó... meu amigo, meu caro...

Eu já nem sei que é querer.
Se isso mo fosse tão claro,
Se eu soubesse o que quero,

O senhor pode ter certeza
Que subiria naquela mesa
E lhe cantaria um bolero.

Soneto

“It faut s’abêtir”
Blaisé Pascal

Sim, me preocupa o adultério.
Mas como já disse Rimbaud,
Ninguém jamais será sério
Aos dezessete anos de idade.

Por isso procuro a ataraxia
Do velho e mui sábio Epicuro
Em um antro calmo e escuro,
Cheio de livros empoeirados,

Longe da universal hipoxia
Destes imbecis apaixonados.
Não que eu queira ser abade

Ou algo deste tipo. Enfim...
Você pode chamar-me Pierrot
Mas eu sei que sou Arlequim.

Soneto

Meu amor não é dado ao exagero
E é antes indiferença que amor.
Um amor cru, frio, sem sabor;
Análogo a um prato sem tempero.

Sim, embora eu te estime muito,
Não morro por você. Ainda assim
Almoço e compareço a um festim
Ou outro, como recreio fortuito.

E, se rejeitado, não choramingo.
Leio Derrida num langue domingo
À luz do sol preguiçoso e chato.

(Em cúmulo, como impassível nato,
Ao recordar-me dos cabelos pretos,
Passo a madrugada lendo sonetos.)

À uma idiota que me amou

"A piedade opõe-se completamente
à lei da evolução, lei da seleção natural".
Friedrich Nietzsche

“Faire le mal pour le plaisir de le faire”
Prosper Merimée

Eu gosto de ver-te chorando,
Derramando vinho pelo manto
Branco da mesa. Co'um bando
Dos avantesmas do quebranto

A te rodear. Sou teu santo
E a mim tu rezas, ofegando
Com este bucho quase pando
De vinho barato. Teu canto

Melancólico, trás regojizo,
E eu, cruel diabo, indeciso
Penso em dar-te um alívio.

Mas a idéia foge-me à mente
E, a ti, eu desejo o quente
Inferno do eterno oblívio.

Meu êxtase

Eu, como um vil rastejante,
Tateio-te as grossas pernas
E desenho, co'a língua dançante,
As saliências externas
Do teu corpo, suave e macio,
Que se entumesce de brio
A este toque, pulsante,
Dos tecidos, durante
O nosso enleio leviano.

Eu, besta, ainda que humano,
Completamente faminto,
Doudo de instinto,
Os teus pêlos ouriço,
Apalpando o viço
Dos teus seios maduros.
Belos, genuínos, puros...
Um primor!

E em um ato decisivo,
Satisfaço, sedento, lascivo,
O tenro frescor
Do teu belo ventre,
Deleitando-me, entre
As tuas duas coxas,
já exangues e roxas
De tantas mordidas.
Elevando-se, perdidas,
Para cima.

E tu, Minha amante,
Neste insano clima
Quente e excitante,
Exprime um estalido
De pura libido,
Gozo e prazer.
E descansas, desmaiada,
Desde a exausta madrugada
até o alvorecer.

Soneto

A maior heresia de toda a língua
Francesa: Esta torpe rima, míngua
De qualquer sentido ou verossimilhança,
Que só o teu vil som enfastia e cansa

Qualquer poeta, digno de si mesmo.
Maldito o povo que, labutando a esmo
O seu dialeto, criou, com destreza,
Toda a idiotice e a soberba fraqueza

Dos europeus. Do germano ao godeme,
Todos comeram deste infecto alimento
Que gera, todo mês, um morto rebento

De menestréis apaixonados. Eu repito,
Sim, outra vez, eu xingo este maldito
Contingente que rimou je t'aime a poéme.

Soneto

Eu, enfadado, sento-me à velha mesa
E pergunto-me: "Diabos, em que lugar
Estaria, o alento da vida, que perdi
Pelas estradas opacas da existência?"

Deixei cair, no sono da abstinência,
Toda esta doçura ácida do frenesi.
Que maldição me assola! Quero amar,
Doar-me ao braços de uma portuguesa

Assanhada ou de uma mulata mansa.
É que ser niilista, ás vezes, cansa...
E me inspira a indagar pelo prazer,

Este aviltamento das mentes fracas,
Que se mascaram atrás de mil socapas
Para, hipocritamente, seguir a viver.

Elliot Scaramal

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

(Sem título)

Queria tanto que não fosses tão efêmera,
Que não estivesses
“Ameaçada de desaparecer brevemente”
Deve ser por isso que te amo tanto...

Escrevi teu nome num papel
E guardei numa gaveta
A sete chaves
Diga-me, isso foi poético?

Felipe Barbosa

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Selo

Um velho cansado de viver. Um velho que não morria. Sentava na praça e ficava esperando o fim. De dia o céu só apresentava o sol e algumas nuvens que sempre iam esvaecendo e o deixava com a visão amarela brilhosa do sol somente. Persistia sentado esperando o que o céu poderia oferecer mais tarde e a noite vinha e o céu oferecia agora as belas estrelas e uma lua cheia.

Sozinho ele pensava no porquê de se ter um quadro com uma pintura tão linda se ninguém parava pra admirar aquela beleza. Questionava o Deus do porquê de oferecer uma noite admirável a ele se ele estava cansado daquela cena, daquela vida, daquele ar.

E continuava a brigar e todos os dias eram assim; mas o céu não se irritava, era sempre a mesma beleza, às vezes com mais estrelas às vezes com menos, nenhuma palavra daquele velho feria a noite. Então quando o velho não agüentou mais ser o único admirador da noite ele fechou seus olhos e a única coisa que desejou foi um amor, porque assim conseguiria ver o brilho das estrelas e o caminho iluminado pela lua. Suas preces não foram ouvidas, seu coração estava já petrificado e a única coisa que podia esperar realmente era a morte.

Em uma noite quando o velho estava de olhos fechados e desejando profundamente seu fim, já que não enxergava outro caminho, um casal passava em frente ao banco onde ele estava deitado e então por causa da sombra que eles faziam sobre seus olhos, ele os abre e vê que os namorados estavam parados fazendo justamente o que o velho desistira de fazer, eles estavam desvendando os mistérios do céu.

E como um dia é preciso ir, o velho se levanta do banco e começa a caminhar, mas não olhava para o chão, agora ele entendia o que o céu queria mostrar a ele. Olhava para o belo quadro e caminhava e então sua prece foi atendida: caminhando e seguindo o caminho da lua ele morre atropelado. O casal na praça, bem distante do acidente selou aquela noite com um beijo de amor, sentados no banco do velho. E o dia amanheceu azul.

Juliana Roma

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Noite no apartamento

O apartamento de segundo andar, um lar sombrio de segredos, estava quase ao leito do abandono. Fazia dois dias que não ia ao apartamento. Aguardando como um cego que aguarda os olhos, que por mais que venham não são seus, enquanto isso seu dono acabara de chegar de mais uma noite de bebida e marginalidade, dessa vez ainda estava sóbrio, seja por acaso, ou se por acaso ele tiver se cuidado.
Ele subiu as escadas do pequeno prédio, era de clara dúvida quem era mais soturno, as escadas, ou aquela aparição. Nunca usava o elevador, gostava de andar, refletir e sentir-se subindo em todos os âmbitos, gradativamente. Chegou ao apartamento e quase bateu na porta como quem desejasse que alguém de dentro abrisse, mas não havia mais que ratos dentro. Entrou sozinho, como se entra num coração, sozinho.

Tirou sua jaqueta, jogou no sofá, o apartamento era extremamente sombrio e pequeno, momento algum ele acendia as luzes. Não gostava de luzes, não havia ninguém para se ver, ninguém para se compartilhar uma luz. Ratos? Ele não era afetivo com aqueles que usavam suas sobras. Foi direto sentar-se na janela do quarto de dormir. Lá ele podia ver a rua, e a todos dela, sentir-se no mundo, mesmo que seja só como um observador passivo. Para ele, já é ativa essa atitude tangente.

Viu uma igreja cantante naquela noite calma, onde os credores se desgostavam para gostar de Deus, a igreja e os fiéis destoavam naquela paisagem e perturbavam a noite senil, faziam turbilhões e permitiam dores noturnas. Mas a noite, sempre calma, clamava muda pelo rachar das igrejas. Na rua poucos malditos se descuidavam, já era tarde. Quem nessas horas se aventuraria por este bairro? Os ingênuos? As vítimas? Vale lembra-se dos marginais que brotam do inchaço urbano. Ele era acostumado com isso, não queria mais se constranger com tais mesquinharias.

Depois de longa fúnebre admiração da noite, se deslocou da janela, e na eterna escuridão de seu quarto trocou de camisa. Estava disposto a ir dormir, ele odiava quando seus momentos tediosos na janela levavam-no a pensamentos moribundos e traiçoeiros. Difícil entender esse temor, ele mesmo toda noite se dirigia à janela. De súbito, sem se assustar ou muito estranhar, como se já sentisse o chamado, escutou um grito forte da rua dizendo raivosamente: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”. Quem haveria de ser? Mais um marginal desafiante? Outro prestador de contas? Um vitimado de adultério que deseja duelar sua honra? Não, duelistas já não existem, com certeza apenas um marginal corajoso e vingativo. Olhou escondido de relance, pela janela, nem precisava, sabia que era ele que o estranho chamava, mas viu no meio da rua, de camisa cavada, iluminado pelos postes tenebrosos, o estranho que o chamava.

Saiu de manso do quarto, queria que não percebesse o seu deslocar, talvez tenha feito isso por costume de alguém sorrateiro. Enquanto isso ainda ouvia os gritos do desafiante. Quando fora do quarto, foi correndo frenético, saiu do apartamento, até deixou a porta aberta. Ninguém roubaria seu apartamento, o que iriam roubar? Roupas gastas? Livros rasgados? Correu alucinado, pegou o elevador sucateado e antes tarde, saiu do prédio e foi à rua, na noite clara, ao encontro de seu desafiante. Chegou a se atordoar com a mudança de luminosidade, a rua, devido aos acesos postes, era ligeiramente mais iluminada que seu prédio de desalmados. Mas não se constrangeu, ele só queria aturdido rebentar em combate com o estranho que lhe chamara.

Mas o quê? Não havia ninguém! Como não havia ninguém? O covarde fugiu? Não desceu do apartamento a tempo? A rua cinzenta, a igreja agonizante, as casas observadoras e falsárias, estavam todas vazias. Mesmo noite, os postes o iluminavam-no como num grande picadeiro, estava no centro, iluminado, focado, como nunca havia sido antes.

Viu então, num deslumbrar, como num presságio, ou como num aviso, viu o prédio velho, seu andar desolado, seu apartamento taciturno, a janela, a maldita janela de seu quarto, perpétuo escuro, perpétuo companheiro de solidão. Então, como se já fosse premeditado, como se já fosse profetizado, ele gritou: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”.

Felipe Barbosa

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Como a situação muda

Os ruídos da noite assustavam a criança; a cada olhar se evidenciava o perigo e o medo latente era pela sua face expresso. Como um animal pronto para o abate, era assim que se sentia, mas para as pessoas ao seu redor era apenas mais uma criança jogada ao léu.

Num fluxo recorrente olhares sorrateiros eram a ela lançados e a pequena criança olhava ao seu redor em busca de proteção, mas o que havia eram somente prédios que presumiam tal segurança aos que nele residiam, porém não ao seu vazio.

Na larga rua em que se encontrava, carros passavam e as luzes davam uma idéia incerta de que caminho seguir. Cheiro, vozes, ruídos tudo se misturava em sua cabeça, mas nada disso lhe dava a certeza do que fazer. Pés sem cabeça para que rumo tomar, o corpo paralisado; só haviam ouvidos e olhos, estes esbugalhados para captar melhor o perigo.

Pensava consigo como poderiam existir tais humanos, humanos sem humanidade. Como não viam tal espanto em uma criança, como poderiam lançar olhares tamanhos desdenhosos? Sim. Não havia mão amiga.

A avenida com fluxo permanente de carros, com a proeminência de um incidente, assim mesmo era melhor do que tolerar aqueles cheiros, passos e olhares. Uma decisão era agora necessária. A criança perturbada, não suportava mais a segurança daqueles prédios que a cercavam e a encurralavam para a multidão, agora os pés ainda sem cabeça moviam o corpo para a avenida.

Parada, entre os carros, tinha um único anseio: que alguém lhe estendesse a mão; um anseio tão ingênuo, porém perdoa-se, afinal era uma criança; não obtendo respostas deu um passo à frente. Olhares complacentes eram agora a ela lançados, o intenso fluxo convergia agora em sua direção, mãos eram agora estendidas e a ajuda tão esperada era agora em vão.

Juliana Roma e Alessandra Roma

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ao fantasma de Manuel Bandeira

Enquanto o fogo quente e cru
Das cinzas queimam-me o olhar.
Peço para que, ao menos no bar,
O senhor fique quieto. Mas tu...

Falando-me da mesma mulher,
Pergunta-me, ao som do luthier:
"É mesmo ela que você quer?"
Ó... meu amigo, meu caro...

Eu já nem sei que é querer.
Se isso mo fosse tão claro,
Se eu soubesse o que quero,

O senhor pode ter certeza
Que subiria naquela mesa
E lhe cantaria um bolero.

Elliot Scaramal

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Soneto

Se perguntar-me curiosa, ao acaso,
O que há no apartamento ao lado,
Suspirando, com pesar, enfadado,
Após tragar, dir-te-ei um triste caso:

Um homem vive lá, com descaso,
Traz hora ou outra, bem camuflado,
Moças crianças, de vestido ajeitado,
Vão pra Europa depois de um prazo.

Como as consegue? Se ele as obriga?
Atuações piegas, poemas obsoletos...
Não sei hoje, mas assim as iludia.

Sobre teu anseio, saiba minha amiga
Que possuem catorze versos, os sonetos,
E que um final feliz aqui, não caberia.

Felipe Barbosa

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Rastejo de um perdido

E o sol radiante no céu castigava o homem na terra. Ele que rastejava e levantava, sofria com sua carne nua torrando na terra de ninguém. A dança era ritmada, caía e quando a pele sangrava, ele levantava e a passos lentos chegava-se a lugar nenhum. Se o sol pairasse em outra direção a história seria alegre, mas como estávamos no sertão nordestino, o sol, aquela bola de fogo do inferno, batia e fazia sangrar a pobre cobra do sertão.

O diabo era ele, as pedras faziam o papel de homens castigados, porém esse inferno era na verdade um circo já que as pedras é quem castigavam o demônio da terra de ninguém. Essas pedras que entravam nos ferimentos do pobre diabo faziam-no delirar de dor e o chão áspero arrancava o coro do homem, era um verdadeiro inferno de sofrimento. Seus pés não suportavam carregar aquele corpo delgado e num instante já estava o verme novamente rastejando. As pedras pareciam rir dele e quando isso ocorria, à fúria do demônio vinha à tona e o inferno tremia; ele gritava, xingava e chutava tudo que via pela frente e na sua frente só havia as pobres pedras.

Queria chegar a algum lugar, mas só havia como seguir em frente e a sua frente não havia nada a não ser mais terra pra engolir, a raiva já era evidente e o sangue empoçava a cada rastejo da cobra lerda. Ele chorava, o desespero era evidente, tinha que encontrar alguma coisa e rápido. Ele tentava correr, mas caía em seguida e então se arrastava o mais rápido possível, a carne exposta já não agüentava mais.

Foi quando avistou um vazio, a estrada não continuava mais; pensara então ter chegado ao seu destino e então ele soltou um grito de vitória, como se diabos ganhassem alguma coisa. A dor já não sentia e então se arrastava mais rápido a fim de chegar primeiro, como se estivesse competindo com alguém, mas não havia ninguém, aquele inferno era só dele. Então chegando à beira do buraco, ele vê o precipício e agora sem esperança de nada ele se torna o rei daquele inferno.

Aquele anjo só queria chegar em casa, pra salvar sua família; ele estava com o dinheiro e eles não iriam precisar serem despejados e andar que nem ele estava andando a minutos a trás. O roubo muitas vezes não significa nada pra alguns, mas é a vida de outros.

Juliana Roma

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O homem que teve um filho

João honrava seu nome genérico, tinha cara de domingo. Sob todo seu corpo, escasso de melanina, em mor parte, exposto, se alastravam penugens negras, que se contrastavam às desbotadas da cabeça. Em suma, sua fisionomia de pêra não agradava as fêmeas vistosas. Morava só, no deserto claustro do subúrbio goiano. Tinha um passatempo peculiar: em todas as suas folgas (não poucas para quem se sustenta em bicos) rumava ao centro gris da cidadela e servia-se de uma caixa quente de cerveja, negociada a favores. Em uma dessas habituais recreações, irrompeu, do sereno nada das ruelas sinuosas e silentes, que, abandonadas ao sol quente, servem de anteparo à luz, que bate e reflete em um eterno fulgor matinal, uma moça matura das curvas forçadas e do batom rubro-sangue, co’uns decotes sugestivos, ainda que de peitos avaros. Sentou-se, realçando as abundâncias de coxas que, contudo, trocando em miúdos, não compensavam a falta de peito. Acendeu um cigarro. Os olhos inundos em vasos vermelhos impunham vulnerabilidade. Começaram a altercar alguns assuntos reles. A moça loura (como se toda loura fosse bonita...) atirava, ao ar, quanta e mais quanta, de libido vaginal, que se homogeneizavam às conversas dos dois. A mulher pulou ao colo do nosso herói e clamou, ofegante:
- Trepa comigo?
Vou dar-me ao regalo de privar-me da descrição das expressões de João. O fato é que: eles treparam. Sim, ali mesmo... Ó, leitor... Por favor... Poupe-me desses assombros hipócritas.
O evento desvaneceu-se pela vida de João, que, tendo tempo para estudar o fato, não conseguia discernir se fora um sonho ou um acontecimento concreto. João parou de beber.
Mas qualquer aspiração de tédio que poderia pairar sobre aquela vida ordinária, foi anulado quando, alguns anos depois, este recebeu uma missiva. Era grande demais para um bilhete e curta demais para uma carta. Fora grafada com todos os erros ortográficos possíveis. O conteúdo era gélido. Sem perfumes ou doces (e nauseantes) marcas de beijos.
Enfim, João não os saberia apreciar, de qualquer modo (este personagem é um orgulho que tenho). Esta missiva tratava de uma enorme desgraça: Um filho!
João não teve, nunca, tempo de cogitar se queria ou não um filho. Era inútil agora. A notícia lhe alagava o bucho em soluções ácidas dolorosas.
O cancro deveria chegar ao domingo, e viria só, a mãe preferia não manter contato.
Para que não tenha que narrar a rotina deplorável do nosso protagonista até lá, saltarei até a chegada do garoto. (quem foi capaz de deduzir que este foi um pretexto para acelerar o conto, ganha um parabém).
O garoto desembarcou do ônibus, João o esperava, sonolento e mal-barbeado, foi a custo. O pequerrucho era feio como o capeta, nem gordo nem magro, sem índole alguma. Logo que João percebeu o crachá do menino, pesquisou alguns índices que validariam a hipótese de que aquele não era seu filho. Fado cruel.
O menino era idêntico a João.
- Oi, você é meu pai?
- Não...
- Então você é o quê?
- Sou amigo da sua mãe, ela me pediu para que eu cuidasse de você.
Na sua candura manteigosa, a peste suspirou satisfatoriamente. Foram para casa.
- Como eu é que eu posso te chamar?
- Não me chame.
- Tá bom...
O menino se consternou. João não se importou.
- Quê que tem pra comer?
- Nada!
- Nem leite com café?
- Não!
- Nem...
- Não! Já disse que não, praga!
João se levantou.
- Onde você vai?
- No banheiro. Vai ficar me vigiando agora?
João trancou-se no quarto. Respirava agressivamente. Quando saiu... O moleque o aguardava com os olhinhos imbecis desamparados.
- Por que você tava aí? Você disse que ia no banheiro. Aí não é o banheiro. Por que você não foi no banheiro?
- Puta que pariu. Você fala demais. Olha menino... – disse possesso, entregando alguma quantia de guardanapos e uma caneta que conseguiu em uma antiga campanha política – Se eu arranjar uma ocupação pra você, você me deixa em paz?
- E quê que eu vô fazer com isso?
- Vai desenhar.
- Mas...
Tentou balbuciar, deixando escapar uma lágrima. João correu para o quarto e, como se o tempo fugisse, as semanas passaram ligeiramente: João fugindo de sua cria, e o bicho, na sala, rabiscando. Ambos se alimentando de uma dieta de comida de bar.
João voltou a beber. Isso não deveria ser uma surpresa. O menino só engordava.
Cada mísero minuto que João passava fitando aquele menino feio, desgraçadamente semelhante a ele, era o esboroamento de qualquer esperança. A presença do menino era a ausência da mãe. A nulidade completa de prazer. João já havia cumprido seu papel com a natureza, agora ela não precisava mais dele.
O menino era a flacidez da carne de seu pênis, tristonha e lânguida. Cheirava a hormônio seco. Abriu um conhaque e sorveu alguns goles frouxos. Aquela massa de matéria orgânica transmutou-se na epítome do desprazer. A lástima de sua vida. Por meses assimilou uma idéia... Mas era abstrata demais.
Não obstante, esta idéia não fugiu-lhe à mente. Tornara-se fixa. E por tempos e tempos, João regurgitou a idéia. Não, o esquecimento não é uma vis inertae.
- Menino... Vem aqui pro quarto.
- Pra quê, João?
- Vem aqui.
O menino entrou, desatento no quarto, com o semblante idiota de qualquer criança, perpetuamente boquiaberto, de olhos líquidos e estáticos. João sacou, com os olhos apaixonados, um martelo de carne, e golpeou o crânio da criança, esmagando-o. O defunto tombou ao chão. Os músculos gritavam por outro golpe, em uma agonia formigante de êxtase. As mãos tremiam, deliberadamente. O falo enrijeceu. Sucumbiu ao chão, banhando-se do sangue da caça. Cada receptor neural palpitava em excitação. O plasma era um mar de dopamina. As pupilas, dilatadas, embevecidas em repleção animal, contemplavam o magnífico, o esplêndido, o sublime, odor fresco de liberdade.

Elliot Scaramal