segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A arte é um laissez-faire - A obra maldita de Antônio de campos

Soneto de sinceridade

Já tentei, de vários jeitos,
Dizer-lhe o quanto a amo.
Porém, preso em meu açamo
De carranca, fiz-me afeito

De te desdenhar. Mas agora
Que só me resta ser sincero,
Já se apropinqua o outrora
E eu não sei se ainda quero

Vomitar qualquer verdade.
Não sei se deveras queres,
Também, ouvir a rotulagem

Destes meus anseios reles,
Que não fruem de sinceridade.
São só jogos de linguagem.

Ao fantasma de Manuel Bandeira

Enquanto o fogo quente e cru
Das cinzas queimam-me o olhar.
Peço para que, ao menos no bar,
O senhor fique quieto. Mas tu...

Falando-me da mesma mulher,
Pergunta-me, ao som do luthier:
"É mesmo ela que você quer?"
Ó... meu amigo, meu caro...

Eu já nem sei que é querer.
Se isso mo fosse tão claro,
Se eu soubesse o que quero,

O senhor pode ter certeza
Que subiria naquela mesa
E lhe cantaria um bolero.

Soneto

“It faut s’abêtir”
Blaisé Pascal

Sim, me preocupa o adultério.
Mas como já disse Rimbaud,
Ninguém jamais será sério
Aos dezessete anos de idade.

Por isso procuro a ataraxia
Do velho e mui sábio Epicuro
Em um antro calmo e escuro,
Cheio de livros empoeirados,

Longe da universal hipoxia
Destes imbecis apaixonados.
Não que eu queira ser abade

Ou algo deste tipo. Enfim...
Você pode chamar-me Pierrot
Mas eu sei que sou Arlequim.

Soneto

Meu amor não é dado ao exagero
E é antes indiferença que amor.
Um amor cru, frio, sem sabor;
Análogo a um prato sem tempero.

Sim, embora eu te estime muito,
Não morro por você. Ainda assim
Almoço e compareço a um festim
Ou outro, como recreio fortuito.

E, se rejeitado, não choramingo.
Leio Derrida num langue domingo
À luz do sol preguiçoso e chato.

(Em cúmulo, como impassível nato,
Ao recordar-me dos cabelos pretos,
Passo a madrugada lendo sonetos.)

À uma idiota que me amou

"A piedade opõe-se completamente
à lei da evolução, lei da seleção natural".
Friedrich Nietzsche

“Faire le mal pour le plaisir de le faire”
Prosper Merimée

Eu gosto de ver-te chorando,
Derramando vinho pelo manto
Branco da mesa. Co'um bando
Dos avantesmas do quebranto

A te rodear. Sou teu santo
E a mim tu rezas, ofegando
Com este bucho quase pando
De vinho barato. Teu canto

Melancólico, trás regojizo,
E eu, cruel diabo, indeciso
Penso em dar-te um alívio.

Mas a idéia foge-me à mente
E, a ti, eu desejo o quente
Inferno do eterno oblívio.

Meu êxtase

Eu, como um vil rastejante,
Tateio-te as grossas pernas
E desenho, co'a língua dançante,
As saliências externas
Do teu corpo, suave e macio,
Que se entumesce de brio
A este toque, pulsante,
Dos tecidos, durante
O nosso enleio leviano.

Eu, besta, ainda que humano,
Completamente faminto,
Doudo de instinto,
Os teus pêlos ouriço,
Apalpando o viço
Dos teus seios maduros.
Belos, genuínos, puros...
Um primor!

E em um ato decisivo,
Satisfaço, sedento, lascivo,
O tenro frescor
Do teu belo ventre,
Deleitando-me, entre
As tuas duas coxas,
já exangues e roxas
De tantas mordidas.
Elevando-se, perdidas,
Para cima.

E tu, Minha amante,
Neste insano clima
Quente e excitante,
Exprime um estalido
De pura libido,
Gozo e prazer.
E descansas, desmaiada,
Desde a exausta madrugada
até o alvorecer.

Soneto

A maior heresia de toda a língua
Francesa: Esta torpe rima, míngua
De qualquer sentido ou verossimilhança,
Que só o teu vil som enfastia e cansa

Qualquer poeta, digno de si mesmo.
Maldito o povo que, labutando a esmo
O seu dialeto, criou, com destreza,
Toda a idiotice e a soberba fraqueza

Dos europeus. Do germano ao godeme,
Todos comeram deste infecto alimento
Que gera, todo mês, um morto rebento

De menestréis apaixonados. Eu repito,
Sim, outra vez, eu xingo este maldito
Contingente que rimou je t'aime a poéme.

Soneto

Eu, enfadado, sento-me à velha mesa
E pergunto-me: "Diabos, em que lugar
Estaria, o alento da vida, que perdi
Pelas estradas opacas da existência?"

Deixei cair, no sono da abstinência,
Toda esta doçura ácida do frenesi.
Que maldição me assola! Quero amar,
Doar-me ao braços de uma portuguesa

Assanhada ou de uma mulata mansa.
É que ser niilista, ás vezes, cansa...
E me inspira a indagar pelo prazer,

Este aviltamento das mentes fracas,
Que se mascaram atrás de mil socapas
Para, hipocritamente, seguir a viver.

Elliot Scaramal

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