domingo, 14 de dezembro de 2008

Lágrimas

Se você chorar, suas lágrimas me servirão
Para lavar os pecados de minh’alma, que perdida estava.
Suas lágrimas, como um lago virgem, intocado,
Purificam meu caminho, que outrora desviado foi.

Se você chorar, suas lágrimas me servirão
Para tratar meu coração, que ferido estava.
Suas lágrimas, como uma ânfora de pureza,
Purificam meus gélidos, meus vazios pensamentos.

Minha vida que era vazia, agora se liberta,
Meu coração, que era espremido por sua beleza
Agora se ilumina e lhe presta todo auxílio,

Auxílio que não prestei, ainda que pudesse...
Minha vida agora liberta só me leva a um destino,
Ao destino que se encontra por trás de suas lágrimas.

Felipe Barbosa

Bekräftigen ist lügen

Pour la mondialisation et le génocide culturel

"I will never write In this language
Of such imbecile men"
I said to them,
Imposin' my image,
I assured: "Alright?
I'm a true patriot, as you can see."
Now... Where is the damn irony?

PS: Δεν είμαι ένα κοσμοπολίτης

Elliot Scaramal

Sem sombras

Lua e postes acesos iluminavam a rua deserta por onde já passara a pouco um velho libertino. Os passos já soavam longe e a todo momento o velho olhava para trás e para cima como se esperasse algum julgamento terrível do céu. O vento assoprava forte e as árvores balançavam, fazendo um barulho que sem querer deixava pistas de sua passagem.

Seguia com seus devaneios que cada vez mais assombravam sua mente. O desespero eminente em seu rosto e a palidez de sua pele o deixava mais velho do que aparentava ser. Velho ofegante, não agüentava dar mais nenhum passo. Sentou-se na calçada para recuperar o fôlego e quando observou-se percebera que estava sem a camisa branca e o zíper de sua calça ainda estava aberto.

Ele olha para o relógio e num súbito desespero sai correndo de volta ao local onde tudo acontecera. Chega ao lugar. Ela ainda está estirada no chão. Era jovem, cabelos grandes e lisos e agora o branco de sua pele contrastava com o sangue que escorria de sua cabeça do tanto que se debatera. Esse sim fora o melhor estupro que fizera, nunca sentira tanto prazer retirando o pudor de uma pobre jovem.

A camiseta estava ali, em cima dos seios robustos da moça. Seios esses que agora estavam roxos de tanto serem comprimidos pelas mãos velhas, enrugadas do velho libertino. As mãos ainda desejosas, o corpo ainda fogoso não perdoara o corpo arranhado e roxeado do cadáver. Começava assim tudo de novo. Ele colocou-se deitado ao lado dela e dá inicio as ações de seus devaneios. Esqueceu-se do tempo, das luzes e das árvores. Incessantemente apalpava-a e a apertava. Mas ela não correspondia ao seu desesperado amor.

Cansado de tentar arrancar qualquer suspiro da boca da jovem, ele fecha o zíper de sua calça, pega sua camisa e sai. Agora despreocupado, andando a passos leves vai seguindo sua direção. Era velho mas ainda tinha desejos juvenis.

Juliana Roma

Soneto

Meu nome outrora, muito lhe garanto,
Era por muitos, com orgulho exaltado,
Mas o tempo enferruja corações, portanto
Hoje, sonho ouvir o nome passado.

Estou pelos irmãos de outrora desvalido,
Se eu não os buscar incessante, fugirão!
Mas quietos, no canto deles, pois vívido,
É aquele que do passado, não tem tentação.

Agora perdido, padeço abandonado
Em minha poltrona, trépido em meu canto,
Aflito, pois fui pelo tempo vencido.

Suplico então, que venha, tão atrasado
Alguém que de mim recorda, e traga tanto
Encanto àquele, que foi por todos esquecido.

Felipe Barbosa

Um Antropófago? Sim. Modernista? Talvez.

Da calçada, avistou a besta humana falecida
Rastejou ambicioso, alcançou-lhe o defunto
E, voraz, comeu-lhe a carne, a pele, o unto
E do sangue, fez bebida

Comeu morte
Criou vida

No chão, de pança saliente,
Gozou da exótica saciedade
De extinguir, aos dentes,
Elo vão de sociedade

Elliot Scaramal

Soneto

Sonhando, como uma singela criança,
Como um anjo, ou fruta doce, sorrindo,
Cingindo o travesseiro, numa eterna aliança,
Com índole tão sossegada, dormindo.

De bruços... Invadem-me pensamentos...
O ar perfumado arfava ternamente...
De camisola... Cruéis pensamentos...
Ah... Se cochilasse eternamente...

Que fazer? Se tal languidez feminina,
Tão ambígua, e tão fiel de minha adoração,
Desperta em minh’alma inculta, masculina
Tão sôfrego desejo, e tão voraz alucinação?

Seria ela a prometida que o noivo alucina?
Ou seria eu só o pai zeloso com sua menina?

Felipe Barbosa

Ode a uma barata

Ó! Insecto castanho,
Como és maravilhoso.
É com incrível gozo
Que lhe espio no banho,
Ainda que seja estranho
Este hábito, me satisfaz
A tua índole voraz
De invertebrado
Ligeiro e esfomeado.
Deus noctífago,
Que caça nas trevas
Seu sustento sagrado.
E te enveredas
Pelos sombrios cantos:
Mesas, quadros, mantos...
Para, trêmulo de temor,
Escapar do seu predador:
O homem! A vil peste
Que não se cansa
De aludir-te a este
Tal Gregor Samsa.
Ó...
Meu blatídeo, eu sei...
Quanta injúria!
Um dia ainda serás rei,
E o homem, tua cúria.

Elliot Scaramal

Chuva

Era só uma criança, mas já entendia as brigas de seus pais. Era por sua causa, podia ouvir tudo, apesar de não gostar do que escutava e via, continuava a admirar a cena depreciativa. Cena essa que se repetia e se repetiu durante toda a sua infância, não entendia o porquê de ser culpada das brigas, mal sabia elaborar idéias.

Em uma delas seu pai, de tanta raiva, quebrou várias coisas de casa, e de novo a culpa sobre caiu nas suas costas, ela chorou nesse dia, mas podia ver que o céu a acompanhava, o céu também chorava. Sentiu então um alívio, alguém estava com ela nesse momento difícil que parecia não ter mais fim. Acaba por adormecer, tem um sonho lindo. Sem palavras para descrevê-lo. Infelizmente acorda, encontra sangue em seu lençol, se assusta, olhando-se não encontra nenhum ferimento, entende, é só a primeira menstruação.

Agora crescida, as brigas terminaram, como em um passe de mágica, mas as marcas ficaram as lembranças corroem-na, odeia os pais. Odeia tudo aquilo que já causara dor em sua vida. A vida vai passando e o ódio nunca cessara, parece que na verdade aumentara. Tenta libertar-se no rock, filosofia, nada adianta, seu estado de espírito quer liberdade.

Os pais já não existem mais, morreram, nem sequer uma lágrima derramara, o ódio ainda é imenso, pensava. O céu chorou e ela não o acompanhou, tantas vezes ele a seguia dando força a sua lamentável vida, e na noite da morte de seus pais quando está em prantos, ela não o acompanha, é o fim de uma vida de união, a relação é cortada.

Agora ela, em estado depreciativo, pensa novamente; pensa em quem vai lamentar a sua morte, não dá mais tempo de implorar a ninguém, nem a seu amigo céu.

O veneno faz efeito. Ela se arrepende por não ter chorado quando queria, e por não ter perdoado. Degustava seu próprio sangue e todo ódio que o corrompera. Tinha apenas 32 anos! Diagnóstico: suicídio por envenenamento. E o céu chorou.

Juliana Roma

Antares

Naquela antiga planície doirada,
Aos céus o escorpião avistava,
Com brilho rubro tão quanto alvorada
Teu lume coração sempre brilhava.

É triste lembrar que me foi tirada
Oh dama escarlate de sedução!
Toda minh’alma foi desgraçada,
Seus venenos de amor serão ilusão?

Oh dama de mortífero ardor!
Por que traz tanto pesar tua falta?
Traz teu licor de paixão e rubor
Que admirando a luzente estrela alta

Posso partir, com venenosa clareza
Pois vislumbrei um dia, tal beleza.

Felipe Barbosa

Ode ao Bode

Com clamor retumbante exprimo este assanho
Pela marcha de cadáveres que avança ao inferno
Aqui grito á ti, Rei, que conduz teu rebanho
Á dança das flamas e ao suplício eterno

Aquele que suspira ao cepo gotejante do carrasco
Que engole vis entranhas e não denota asco
Eis o deus que preza o atroz do universo
É para ele que escrevo esse verso

Pois nesse mundo tão mal regido
Que habita a mente humana
Não existe apenas a alma puritano
Mas também o bárbaro e a libido

Elliot Scaramal

Glória

De que valem
Todas as auroras,
Todo o ouro dos anos vindouros
Que os tempos não trazem mais?

De que valem
Os dourados dias
Valorosos, valentes e venturosos?

Nada vale o vale do ouro,
Nada vale mais
Todo o ouro do vale
Pois nada vale na vala.

Felipe Barbosa

Palestra de um poeta louco sobre o amor

Atenção, por favor, doce platéia ausente
A partir de agora serás minha confidente
Para ti, platéia, deixo-lhes meu recado
De um poeta alcoolizado, um legado

Convencido estou do que lhes direi
O amor é um malogro, caros amigos
E se lhes digo, redigo, pois eu sei
O amor é dos mais severos castigos

Mas, o amor, estupra, porém conforta
E quando ele vier bater-lhes a porta
Não negarão teu triste fado
E de nada servirá ter-lhes avisado

Mas, afinal, turba frívola, entendo que ignorante sois
Amem logo, todos, e, como eu, se arrependam depois

Elliot Scaramal

Sábado

A garrafa de vinho sobreposta na mesa de vidro, lá na sala, ele no quarto. Estava preparando-se, como sempre, sábado à noite; coloca seus escritos em cima da mesa, dividindo o espaço com a bebida. O vermelho chamava a atenção perto daquela papelada branca. Talvez não tão branca, pois afinal algumas estavam escritas, estórias inventadas pela sua cabeça doente da solidão.

Sábado à noite era o pior dia! Talvez escolhesse esse dia para juntar suas estórias e escrever novas, porque assim juntava todas as suas dores em uma só noite. Um gole e começou a escrever, acabava de olhar a estória que escrevera sobre a rua, essa que confundia os caminhos de uma vida, levando ao deserto, à extrema solidão ou há uma vida de luzes com muitas pessoas, como as ruas de Paris. Mas para exemplo seu, se conformara com a rua onde caminhou sua vida era a rua da solidão, principalmente nos sábados à noite.

Outro gole. Acabou-se o vinho do copo, assim como a nova estória criada, gostava muito, era criterioso com o que escrevia, mas nunca apagava uma vida do papel. Torna a encher o copo, admira a cor, poderia escrever algo sobre sangue, mas prefere somente a admiração mesmo.

Lembrou-se de colocar um blues para acompanhar a sua solidão, adora os mestres do blues. Pronto, entra no estado mais solitário de sua alma, talvez tivesse escolhido a rua errada. Não se preocupa em fazer critérios de sua vida, estava lá na sua mesa na companhia de suas estórias, de seu vinho e do blues, isso que importava.

Relê a estória criada. Fecha os olhos, acaba-se a música e o vinho. Adormece. Em seu sonho bêbado chega à conclusão de que escolhera a rua certa, tinha uma vida produtiva. Acordar para esperar outro sábado à noite.

Juliana Roma

Procuro-te no céu

Sabe, foi-se o tempo em que me persegues
Aquela mal dita lembrança vaga,
Não sei como nada me desagrega;
Fomes, guerras, o choro dos distantes.

Sabe, foi-se o garoto dos confetes,
Agora homem, ouço-te a cantiga
Temendo chegar o dia em que eu diga
Tudo que desejo, antes que despertes

De seu tenro sono, dos dias lúcidos.
Procuro-te no céu, sempre encontrando-os,
Porém, sem os sentimentos fundidos.

Achei-te, não acima ou abaixo dos olhos,
Nem no Vestíbulo ou Campos Elíseos,
Achei-te em meus braços, enxugando-os.

Felipe Barbosa

Soneto

De teu corpo tão macio e garboso,
O mestre da pintura e do retrato faria
De bom grado, o mais belo e formoso
Quadro, que nos museus brilharia.

De teu corpo tão doudo e quente,
O artífice das formas mais ditosas
Com mui prazer, de ti ternamente
Faria esculturas tão maravilhosas.

De teu corpo tão equilibrado e vasto,
O bom músico faria bela melodia
Que não pode nenhum outro nefasto,
E então, os mortais encantaria.

Mas outro ofício sei, e intento realizar:
Tua mente enlouquecer, ao teu corpo saciar.

Felipe Barbosa

Humano

Oh! Ser tão humano
Há Quanto ouve as litanias de teu senhor
Há Quanto assiste crônicas da dor e do terror
E se delicia, atroz e leviano
De tal morticínio profano

Me enoja, ser tão vão e vaidoso
Extremista e fogoso
Que trai, mata e expõe o irmão
E tem a noite sono são

Roga ao mundo a guerra santa
E censura, descarado, o sacripanta
Como pôde tu, privar o igual da cresta
Oh! Humano, demasiada besta!

Elliot Scaramal

Enumerando-se ventos

Já era noite e estava na hora. Pegou uma folha em branco e uma caneta. Dessa vez não havia vinho, precisava estar sóbrio para o fazer. A mesa era grande, sentou na ponta perto da janela, essa estava aberta e entrava uma brisa que o mantinha acordado. Em outras noites sentava lá para escrever meras histórias fictícias, feitas para crianças ouvirem e dormirem. Era sábado.

Hoje não seria isso. Resolvera sentar-se para escrever sobre sua vida. O que teria feito, o que conquistou e as coisas que desistiu de fazer. Não. Desistira, não iria escrever uma autobiografia. Sentira vontade de planejar sua vida. A caneta era oportuna, já que, ganhara ela não se lembrava quando, mas sabia que fora em uma situação importante, e agora a situação que se encontrava também tinha sua devida importância.

Começou a escrever; eram 21:00h. Planejava poucas coisas, porém enumerava-as com um forte destaque. A caneta tinha quatro cores, as palavras eram escritas de preto e os números feitos em vermelho. Cansava, pensava, escrevia. Já se iam horas e horas, a caneta o acompanhava e o sono vinha. Queria tudo certo para esse resto da vida, não queria surpresas, nem ansiedade, nem desespero. Pretendia fechar sua vida na maior tranqüilidade.

Terminou. Poria em prática assim que acordasse para um novo dia. Foi dormir. Deixara a folha em cima da mesa. A janela ainda estava aberta. Já na cama, o sono o domina. A brisa que antes o ajudara, agora o traíra. O vento vem e leva a folha, mas, algo além da folha fora levado com o vento, também ele não acordou. Que seja assim o cumprimento de um plano com uma leve traição, porém, perdoa-se, afinal era uma brisa de sábado à noite.

Juliana Roma

O beijo

Ele candente, deu um passo à frente,
Ela tímida, recuou num impasse,
Ele insistiu, até que confrontasse
Aqueles olhos, e até que o peito ardente

Com os seios suave se encontrasse,
Para que, tremendo, mas delicado,
Pudesse, sem que ela mais relutasse,
Os lábios tocar, num beijo calado.

Ela palpitando, os olhos assustados
Fechou lenta, confortada com tal evento,
Deixou-se levar pelos quentes agrados,
Desceu uma lágrima, de tanto sentimento

Que despertou nela, aquele doce fado
De ter ele lhe dado, um beijo apaixonado.

Felipe Barbosa

Mulher

Estatuário bendito o que a fez
Presenteou com brandura tua tez
Tuas curvas sagazes, teu seio farto
Mulher, tendes-me ao enfarto

Magnânima, esbanja autonomia
Me afaga a agonia, me sacia
Nem fantasias a grandeza, a magnitude
Do prazer que me proporciona, amiúde

Me jogas ao delírio, aos albores do gozo
Me enlouqueces, me torna ambicioso
E enquanto minha mente palpita á excitação fogosa
Minhas pregas sabiamente a nomeiam: "Gostosa!"

Elliot Scaramal

Soneto

Deixemos todos nós ao todo acaso
Todas as odiosas ocupações mundanas
Para que festejemos, com mui descaso
Tudo que pode nossas mentes levianas.

Tomemos rumo, com nata perversão
De uma daquelas luzes vermelhas,
Para desfrutarmos, resgatando a paixão
Que perdura em nós como centelhas.

Então beba da fonte dos prazeres
Com todas as ninfas que possa achar,
Sem se lembrar de quaisquer deveres.

Mas desses calores não deves relutar
Pois são de carne os homens... e mulheres
Assim, pela carne devem viver e cantar.

Felipe Barbosa

Branco, vermelho e preto

Um vadio. Velho vadio. Muita idade e pouca ocupação. Duplamente vadio. Vadio por ser velho vadio por ser escritor. Vendia a realidade para pessoas que pouco entendiam da vida. Vendia uma maquiagem perfeita da vida, maquiagem essa que nunca fizera parte se seu ser. Vendia fantasia para comprar realidade. Cabeleira branca, pouco cuidada, com grandes entradas, mas se até agora a calvície não o pegara, não seria no fim da vida que os cabelos dar-se-iam ao capricho de cair. Nariz grande, batatudo, grande e rosado. Rugas, muitas rugas, davam-lhe a graça. Um belo par de dentaduras, uma para o meio de semana, outra para o fim de semana. Magro e branco. Quase não saia de casa. Escrevia, só escrevia. Velho, lerdo e besta, fechou-se para si e o si era velho.

Caneta e papel em branco compunham o seu dia. A história começa de manhã, juntamente com o seu copo de café papel branco, café preto e a caneta vermelha. Sua mão pega nas três coisas, sua mão com cheiro de café, manchada de vermelha encosta no papel branco e compõe a história. Cores de circo, cores de palhaço, era sim uma história maquiada com as melhores pinturas, a alegria, a fantasia. O barulho do lado de fora não o incomodava, a realidade pulsante e perigosa era amenizada por sonhos criados e vendidos. O velho era só e só vivia para ser velho. O medo de abrir a porta e sua velhice ser levada, o fizera trancar-se dentro de sua casa e então só sonhar em suas belas criações de realidades fantasiadas. As pessoas compravam suas obras e roubavam a sua realidade. Dessa forma todos sonhavam a mesma coisa e o ritmo da vida era parado só para ele.

À tarde outra história. O último papel branco, a caneta vermelha e agora o vinho tinto, compunham sua nova fantasia. O cheiro do vinho era mais brando do que o do café. História trazia o céu, o mar e o infinito do ser, que no momento estava reduzido a uma casa fechada e cercada por paredes. O sonho da liberdade de viver, a brandura dessa fantasia contrastava com o que se passava da porta pra fora. O papel acaba, mas o sonho da historia não. Resolve abrir a porta e sair pra pegar mais papel. Destranca a porta que a muito não era aberta, a maçaneta enferrujada temia em abrir, a velhice besta, lerda tem medo de ser levado pela realidade do lado de fora, mas enfim a porta é aberta e ouve-se um barulho que a muito já era escutado. Ao mesmo tempo uma criança cai em seus pés, ele a olha. A criança nova, com cabeleira escura, narizinho humilde. A criança que parecia estar brincando, agora estava caída nos pés brancos do velho lerdo. O vermelho do sangue no chão, os pés brancos do besta que compunha histórias para serem vendidas e o cinza do chão faziam uma nova história, mas essa com certeza era real, sem maquiagens ou invenções de uma mente velha. Esse era o real que ele tanto temia. Volta pra dentro da casa, fecha-a e agora sim nunca mais iria abri-la. Velho egoísta, velho medroso, nunca mais escreveria. O papel branco acabara a tinta vermelha secara e o vinho ainda embebeda o velho vadio.

Juliana Roma

Lua

Oh doce Lua estou lhe vendo!
Não, é só a luz dum poste.

Felipe Barbosa

Folha Alva

Tu, que me impõe vaidade
Fita-me com sarcasmo
Esvai-me o entusiasmo
Engole-me o orgasmo

Tu, que me humilhas
Não sentes a dor do poeta
Continuas ereta
Lividez indiscreta

Cúmplice de passados mil
De desdenho sutil
Sóbria e calva

Sei que ainda não ouviste a torpe febril
De mim, homem vil
Folha alva

Elliot Scaramal

MANIFESTO ICONOCLASTA

Grito quatro:

Proclamamos o neo-terrorismo artístico;
Perpetuamente atual, sempre e sempre vigente.
Só o que não muda é a transformação!

Saravá... Dialética literária!

Metralhadoras líricas bufantes, a prosa nuclear...
Mutagênicamente cultural...

O interesse move o mundo:
Toda a high-life descorada e arrogante, os negros astutos e traquinas, os nativos inocentes corrompidos (completamente idealizados!), o bebê que reivindica, a urros, o alimento...

A violência é o mais digno método de sobrevivência
E tão certo quanto a rotação da terra:
A paz é a iminência da guerra.

MANIFESTO ICONOCLASTA

Grito três:

Tudo tende à preguiça;
Eia indolência brasileira!
Eia macunaíma de ternos!
Aquele que pita um bom cachimbo de ébano de valor imensurável em seu palacete faustuoso não se rebaixa a eqüidade por simples bom senso;
Refutemos a literatura romanesca, floreada e cega;
Não a ruminância ataráxica do sistema;
Não ao sono;
Não ao opiáceo!
Sim ao soco na cara!

Maldita seja também a academização da essência da negritude alcóolica, do sertanejo roto, compactada, martelada em um volume subscrito pelo nome de um burguês branquelo.
Exumemos do caixão a insônia febril, veemente, a literatura tresloucada que, malgrado não ser publicada ou até redigida, é pura e completamente literatura;
A única e verdadeira literatura!

MANIFESTO ICONOCLASTA

Grito dois:

Mudança, sempre mudança, por si mesmo sustentada, auto-fundamentada;
Destruição, desconstrução, sem alicerços ou objetivos, desconstrução em si, no mais nítido e concreto caráter da palavra!

Propomos demolir a saturação insípida da literatura falsa;
A literatura dos vendedores de livros!
A extinção de referenciais enquanto fim, não enquanto meio;
A renovação do sistema, sem o tédio reducionista das novas propostas e dos novos ângulos de perspectiva.

O clamor derradeiro ensangüentado dos iconoclastas, dos militantes revolucionários, em si e em suma, privado das ideologias dogmáticas e utilitárias dos partidos políticos;

Toda e qualquer ideologia é pobre, é falha.
Nossa proposta está no próprio ato de propor!

MANIFESTO ICONOCLASTA

Grito um:

Repudiaremos qualquer espécie de literatura apoplética. Política, raquítica, sifilítica... Cuspiremos na mesa asseada do modernismo deputado. Do modernismo que de fato não é modernismo.
[É modismo.
[É ostracismo.
Morte ao modernismo lodo globalizado, pachorrento e poltronário.