quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ao amor da minha vida

Que beleza, que corpo, que perfume!
Perfeita, linda, me apaixonei logo que a vi
Quando a toquei, calor tão grande senti
E agora as outras, não passam de azedume

Que martírio!Quero tê-la novamente
Sozinhos, se amando num cantinho
Vou despi-la, e te fazer muito carinho
E te comer... Saboreando-a lentamente

Meu Deus! Que maravilha!
Sua massa... Seu recheio,
Frango, catupiry e ervilha!

Sim, por você eu até mataria
E de nada terei receio
Minha coxinha de padaria! [Da quitandinha]

Germano Martins

Na mesa da frente

Sentado ele esperava algo; calmamente olhava as pessoas ao redor. A sua frente estava, ela se insinuava sem nenhum pudor. Havia muitas e ele então via cada detalhe da mulher; seus seios demasiadamente murchos atraíram a atenção do homem, seus lábios ressecados, o cabelo um tanto que oleoso, algumas voltas de seu corpo que escapuliam da camisa; tudo, toda essa combinação clamava pela atenção do homem.

Como que hipnotizado ele não tirava os olhos da moça e ela meio que gratificada pela atenção, colocou os cotovelos sobre a mesa e com os braços apertou os seios, esses agora espremidos aparentavam algum volume. A sedução cada vez mais induzia o homem a deleitar os olhares àquela feia dama.

Intrigada com o que estava a se passar na cabeça dele, ela continuava a espremer o seio e agora com o outro braço escondia um pouco seu rosto, a mão tampava um de seus olhos, assim não mostrava mais a vesguice, mesmo tendo a certeza que ele já houvesse visto aquele defeito. Como se odiava, como tinha esquecido a coisa que mais odiava em seu corpo? Agora já perdendo as esperanças de conquistar o homem, ela solta os seios e abaixa a cabeça e num choro silencioso suas lágrimas começam a escorrer em seu rosto e a pingar uma a uma no chão.

O homem sabendo do mal que causara, começou a olhar ela com um olhar de piedade, não queria que ela se sentisse mal, se pelo menos ela soubesse- pensava consigo. Sentado ele fazia barulho para que ela levantasse a cabeça e olhasse pra ele, precisava vê-la chorar; seu rosto úmido como seria? Sua comida finalmente chega, não precisava mais esperar, pelo menos aquilo não, agora aguardava olhar da moça e pelo visto ela não estava disposta a oferecer o que desejava.

De repente num súbito ela levanta a cabeça. Perfeito! Perfeita! Pelo visto ela não havia desistido dele e jogo de sedução recomeça. Ele continua a olha-a, agora com mais interesse. O desejo era aparente em suas faces e com tamanha vontade ele cria coragem e se levanta. Mancando ele vai se aproximando da mesa da mulher. Sim uma perna era menor que a outra e seu corpo era torto. Sim, o homem também tinha defeito e talvez por isso aquela mulher chamasse a sua atenção.

À medida que ele aproximava-se da mesa, ela arregalava os olhos e abria a boca, nem acreditava que aquele homem, aquele que a olhava com tamanha atenção era daquele jeito, torto e coxo. De repente ele para e com um olhar indignado vê que a mulher saíra correndo. Mas por quê? Como? Parecia que ela o queria. Estava gostando de perceber que alguém ainda o seduzia. Agora que ela fora embora ele quem chorava, sentou-se na mesa dela e abaixou a cabeça, decidia ali não mais compadecer a nenhuma luxuria.

Juliana Roma

Cordel exstante

Desligou a televisão, calçou os sapatos rapidamente, pegou o dinheiro e passou a maquiagem. Estava atrasada. Teria agora que enfrentar a fila para ver o espetáculo. Ficou triste, desse jeito perderia seu programa preferido da televisão. Não desistira de ir hoje. Seria muito divertido, juntara muito mais dinheiro do que das vezes anteriores, dessa vez veria a cena mais vezes.

Trancou a porta e saiu. Chegando, era a última da fila, iria demorar. Não era mais a última, havia haviam chegado mais três pessoas para o espetáculo. A espera estava maçante. Começou então a conversar com as várias pessoas que também estavam esperando. O assunto era o espetáculo. As pessoas perguntavam se o homem iria agüentar até a vez delas. A resposta era sempre a mesma: - Claro que sim! Estamos pagando; ele tem que agüentar.

Ouviam-se gritos que vinham lá de dentro da sala. Uma senhora perguntou que tipo de espetáculo era; era sua primeira vez e queria saber se valeria a pena pagar para vê-lo. A mulher replicou: - Não leu o cartaz? Essa é a maior diversão que uma pessoa pode ter. Então a senhora lê o cartaz: Cintada a partir de R$2,00. Não acreditava no que estava lendo. Perguntou se era mesmo aquilo que ela veria. A mesma mulher que replicou, respondeu que sim, que era exatamente aquilo.

Chegou a vez da senhora, tira da bolsa R$4,00, isso dava para duas cintadas. O homem já estava sangrando. Amarrado e amordaçado, ele não reclamava. A senhora mesmo assim não teve dó, entregou o dinheiro e deu duas cintadas no homem, depois jogou o cinto no chão, para a próxima pessoa. Saiu da sala. Encontrou a mulher que respondera as suas perguntas, prometeu a ela que voltaria, havia adorado o espetáculo.

Então, a vez da mulher chegara. Tira da bolsa uma luva e os R$50,00. Poe a luva, pega o cinto cheio de sangue e dá início ao espetáculo. Ouve os suspiros do homem. Larga o cinto no chão, reclama não ter mais dinheiro. Vai embora. Durante seu caminho de volta, um homem que também estava no espetáculo chama ela, ela vira-se e ele conta que o homem morrera, assim que saíra da sala.

Volta pra casa, liga a televisão e torce para que haja outro homem para a diversão de seu sábado à noite.

Juliana Roma

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Homenageando Camões

Soneto

“Camões era um cara legal”,
É pra dizer isso que eu faço,
Preguiçoso em meu regaço
Um soneto sem uma moral.

Ele era um cara intelectual,
Devia ser um cara devasso,
Certeza que escrevia bebaço!
Devia adorar um sexo grupal.

Na cova deve tar revoltado,
Remexendo com tal heresia,
Mas cara, sei que não é igual,

Mas olhe, é ao menos rimado!
E é pra dizer com muita alegria:
“Camões era um cara legal”.

Felipe Barbosa

Esdrúxulo, porém cortês

C
A
M
Õ

E
S ,
V
A

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Elliot Scaramal

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A arte é um laissez-faire - A obra maldita de Antônio de campos

Soneto de sinceridade

Já tentei, de vários jeitos,
Dizer-lhe o quanto a amo.
Porém, preso em meu açamo
De carranca, fiz-me afeito

De te desdenhar. Mas agora
Que só me resta ser sincero,
Já se apropinqua o outrora
E eu não sei se ainda quero

Vomitar qualquer verdade.
Não sei se deveras queres,
Também, ouvir a rotulagem

Destes meus anseios reles,
Que não fruem de sinceridade.
São só jogos de linguagem.

Ao fantasma de Manuel Bandeira

Enquanto o fogo quente e cru
Das cinzas queimam-me o olhar.
Peço para que, ao menos no bar,
O senhor fique quieto. Mas tu...

Falando-me da mesma mulher,
Pergunta-me, ao som do luthier:
"É mesmo ela que você quer?"
Ó... meu amigo, meu caro...

Eu já nem sei que é querer.
Se isso mo fosse tão claro,
Se eu soubesse o que quero,

O senhor pode ter certeza
Que subiria naquela mesa
E lhe cantaria um bolero.

Soneto

“It faut s’abêtir”
Blaisé Pascal

Sim, me preocupa o adultério.
Mas como já disse Rimbaud,
Ninguém jamais será sério
Aos dezessete anos de idade.

Por isso procuro a ataraxia
Do velho e mui sábio Epicuro
Em um antro calmo e escuro,
Cheio de livros empoeirados,

Longe da universal hipoxia
Destes imbecis apaixonados.
Não que eu queira ser abade

Ou algo deste tipo. Enfim...
Você pode chamar-me Pierrot
Mas eu sei que sou Arlequim.

Soneto

Meu amor não é dado ao exagero
E é antes indiferença que amor.
Um amor cru, frio, sem sabor;
Análogo a um prato sem tempero.

Sim, embora eu te estime muito,
Não morro por você. Ainda assim
Almoço e compareço a um festim
Ou outro, como recreio fortuito.

E, se rejeitado, não choramingo.
Leio Derrida num langue domingo
À luz do sol preguiçoso e chato.

(Em cúmulo, como impassível nato,
Ao recordar-me dos cabelos pretos,
Passo a madrugada lendo sonetos.)

À uma idiota que me amou

"A piedade opõe-se completamente
à lei da evolução, lei da seleção natural".
Friedrich Nietzsche

“Faire le mal pour le plaisir de le faire”
Prosper Merimée

Eu gosto de ver-te chorando,
Derramando vinho pelo manto
Branco da mesa. Co'um bando
Dos avantesmas do quebranto

A te rodear. Sou teu santo
E a mim tu rezas, ofegando
Com este bucho quase pando
De vinho barato. Teu canto

Melancólico, trás regojizo,
E eu, cruel diabo, indeciso
Penso em dar-te um alívio.

Mas a idéia foge-me à mente
E, a ti, eu desejo o quente
Inferno do eterno oblívio.

Meu êxtase

Eu, como um vil rastejante,
Tateio-te as grossas pernas
E desenho, co'a língua dançante,
As saliências externas
Do teu corpo, suave e macio,
Que se entumesce de brio
A este toque, pulsante,
Dos tecidos, durante
O nosso enleio leviano.

Eu, besta, ainda que humano,
Completamente faminto,
Doudo de instinto,
Os teus pêlos ouriço,
Apalpando o viço
Dos teus seios maduros.
Belos, genuínos, puros...
Um primor!

E em um ato decisivo,
Satisfaço, sedento, lascivo,
O tenro frescor
Do teu belo ventre,
Deleitando-me, entre
As tuas duas coxas,
já exangues e roxas
De tantas mordidas.
Elevando-se, perdidas,
Para cima.

E tu, Minha amante,
Neste insano clima
Quente e excitante,
Exprime um estalido
De pura libido,
Gozo e prazer.
E descansas, desmaiada,
Desde a exausta madrugada
até o alvorecer.

Soneto

A maior heresia de toda a língua
Francesa: Esta torpe rima, míngua
De qualquer sentido ou verossimilhança,
Que só o teu vil som enfastia e cansa

Qualquer poeta, digno de si mesmo.
Maldito o povo que, labutando a esmo
O seu dialeto, criou, com destreza,
Toda a idiotice e a soberba fraqueza

Dos europeus. Do germano ao godeme,
Todos comeram deste infecto alimento
Que gera, todo mês, um morto rebento

De menestréis apaixonados. Eu repito,
Sim, outra vez, eu xingo este maldito
Contingente que rimou je t'aime a poéme.

Soneto

Eu, enfadado, sento-me à velha mesa
E pergunto-me: "Diabos, em que lugar
Estaria, o alento da vida, que perdi
Pelas estradas opacas da existência?"

Deixei cair, no sono da abstinência,
Toda esta doçura ácida do frenesi.
Que maldição me assola! Quero amar,
Doar-me ao braços de uma portuguesa

Assanhada ou de uma mulata mansa.
É que ser niilista, ás vezes, cansa...
E me inspira a indagar pelo prazer,

Este aviltamento das mentes fracas,
Que se mascaram atrás de mil socapas
Para, hipocritamente, seguir a viver.

Elliot Scaramal

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

(Sem título)

Queria tanto que não fosses tão efêmera,
Que não estivesses
“Ameaçada de desaparecer brevemente”
Deve ser por isso que te amo tanto...

Escrevi teu nome num papel
E guardei numa gaveta
A sete chaves
Diga-me, isso foi poético?

Felipe Barbosa

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Selo

Um velho cansado de viver. Um velho que não morria. Sentava na praça e ficava esperando o fim. De dia o céu só apresentava o sol e algumas nuvens que sempre iam esvaecendo e o deixava com a visão amarela brilhosa do sol somente. Persistia sentado esperando o que o céu poderia oferecer mais tarde e a noite vinha e o céu oferecia agora as belas estrelas e uma lua cheia.

Sozinho ele pensava no porquê de se ter um quadro com uma pintura tão linda se ninguém parava pra admirar aquela beleza. Questionava o Deus do porquê de oferecer uma noite admirável a ele se ele estava cansado daquela cena, daquela vida, daquele ar.

E continuava a brigar e todos os dias eram assim; mas o céu não se irritava, era sempre a mesma beleza, às vezes com mais estrelas às vezes com menos, nenhuma palavra daquele velho feria a noite. Então quando o velho não agüentou mais ser o único admirador da noite ele fechou seus olhos e a única coisa que desejou foi um amor, porque assim conseguiria ver o brilho das estrelas e o caminho iluminado pela lua. Suas preces não foram ouvidas, seu coração estava já petrificado e a única coisa que podia esperar realmente era a morte.

Em uma noite quando o velho estava de olhos fechados e desejando profundamente seu fim, já que não enxergava outro caminho, um casal passava em frente ao banco onde ele estava deitado e então por causa da sombra que eles faziam sobre seus olhos, ele os abre e vê que os namorados estavam parados fazendo justamente o que o velho desistira de fazer, eles estavam desvendando os mistérios do céu.

E como um dia é preciso ir, o velho se levanta do banco e começa a caminhar, mas não olhava para o chão, agora ele entendia o que o céu queria mostrar a ele. Olhava para o belo quadro e caminhava e então sua prece foi atendida: caminhando e seguindo o caminho da lua ele morre atropelado. O casal na praça, bem distante do acidente selou aquela noite com um beijo de amor, sentados no banco do velho. E o dia amanheceu azul.

Juliana Roma

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Noite no apartamento

O apartamento de segundo andar, um lar sombrio de segredos, estava quase ao leito do abandono. Fazia dois dias que não ia ao apartamento. Aguardando como um cego que aguarda os olhos, que por mais que venham não são seus, enquanto isso seu dono acabara de chegar de mais uma noite de bebida e marginalidade, dessa vez ainda estava sóbrio, seja por acaso, ou se por acaso ele tiver se cuidado.
Ele subiu as escadas do pequeno prédio, era de clara dúvida quem era mais soturno, as escadas, ou aquela aparição. Nunca usava o elevador, gostava de andar, refletir e sentir-se subindo em todos os âmbitos, gradativamente. Chegou ao apartamento e quase bateu na porta como quem desejasse que alguém de dentro abrisse, mas não havia mais que ratos dentro. Entrou sozinho, como se entra num coração, sozinho.

Tirou sua jaqueta, jogou no sofá, o apartamento era extremamente sombrio e pequeno, momento algum ele acendia as luzes. Não gostava de luzes, não havia ninguém para se ver, ninguém para se compartilhar uma luz. Ratos? Ele não era afetivo com aqueles que usavam suas sobras. Foi direto sentar-se na janela do quarto de dormir. Lá ele podia ver a rua, e a todos dela, sentir-se no mundo, mesmo que seja só como um observador passivo. Para ele, já é ativa essa atitude tangente.

Viu uma igreja cantante naquela noite calma, onde os credores se desgostavam para gostar de Deus, a igreja e os fiéis destoavam naquela paisagem e perturbavam a noite senil, faziam turbilhões e permitiam dores noturnas. Mas a noite, sempre calma, clamava muda pelo rachar das igrejas. Na rua poucos malditos se descuidavam, já era tarde. Quem nessas horas se aventuraria por este bairro? Os ingênuos? As vítimas? Vale lembra-se dos marginais que brotam do inchaço urbano. Ele era acostumado com isso, não queria mais se constranger com tais mesquinharias.

Depois de longa fúnebre admiração da noite, se deslocou da janela, e na eterna escuridão de seu quarto trocou de camisa. Estava disposto a ir dormir, ele odiava quando seus momentos tediosos na janela levavam-no a pensamentos moribundos e traiçoeiros. Difícil entender esse temor, ele mesmo toda noite se dirigia à janela. De súbito, sem se assustar ou muito estranhar, como se já sentisse o chamado, escutou um grito forte da rua dizendo raivosamente: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”. Quem haveria de ser? Mais um marginal desafiante? Outro prestador de contas? Um vitimado de adultério que deseja duelar sua honra? Não, duelistas já não existem, com certeza apenas um marginal corajoso e vingativo. Olhou escondido de relance, pela janela, nem precisava, sabia que era ele que o estranho chamava, mas viu no meio da rua, de camisa cavada, iluminado pelos postes tenebrosos, o estranho que o chamava.

Saiu de manso do quarto, queria que não percebesse o seu deslocar, talvez tenha feito isso por costume de alguém sorrateiro. Enquanto isso ainda ouvia os gritos do desafiante. Quando fora do quarto, foi correndo frenético, saiu do apartamento, até deixou a porta aberta. Ninguém roubaria seu apartamento, o que iriam roubar? Roupas gastas? Livros rasgados? Correu alucinado, pegou o elevador sucateado e antes tarde, saiu do prédio e foi à rua, na noite clara, ao encontro de seu desafiante. Chegou a se atordoar com a mudança de luminosidade, a rua, devido aos acesos postes, era ligeiramente mais iluminada que seu prédio de desalmados. Mas não se constrangeu, ele só queria aturdido rebentar em combate com o estranho que lhe chamara.

Mas o quê? Não havia ninguém! Como não havia ninguém? O covarde fugiu? Não desceu do apartamento a tempo? A rua cinzenta, a igreja agonizante, as casas observadoras e falsárias, estavam todas vazias. Mesmo noite, os postes o iluminavam-no como num grande picadeiro, estava no centro, iluminado, focado, como nunca havia sido antes.

Viu então, num deslumbrar, como num presságio, ou como num aviso, viu o prédio velho, seu andar desolado, seu apartamento taciturno, a janela, a maldita janela de seu quarto, perpétuo escuro, perpétuo companheiro de solidão. Então, como se já fosse premeditado, como se já fosse profetizado, ele gritou: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”.

Felipe Barbosa

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Como a situação muda

Os ruídos da noite assustavam a criança; a cada olhar se evidenciava o perigo e o medo latente era pela sua face expresso. Como um animal pronto para o abate, era assim que se sentia, mas para as pessoas ao seu redor era apenas mais uma criança jogada ao léu.

Num fluxo recorrente olhares sorrateiros eram a ela lançados e a pequena criança olhava ao seu redor em busca de proteção, mas o que havia eram somente prédios que presumiam tal segurança aos que nele residiam, porém não ao seu vazio.

Na larga rua em que se encontrava, carros passavam e as luzes davam uma idéia incerta de que caminho seguir. Cheiro, vozes, ruídos tudo se misturava em sua cabeça, mas nada disso lhe dava a certeza do que fazer. Pés sem cabeça para que rumo tomar, o corpo paralisado; só haviam ouvidos e olhos, estes esbugalhados para captar melhor o perigo.

Pensava consigo como poderiam existir tais humanos, humanos sem humanidade. Como não viam tal espanto em uma criança, como poderiam lançar olhares tamanhos desdenhosos? Sim. Não havia mão amiga.

A avenida com fluxo permanente de carros, com a proeminência de um incidente, assim mesmo era melhor do que tolerar aqueles cheiros, passos e olhares. Uma decisão era agora necessária. A criança perturbada, não suportava mais a segurança daqueles prédios que a cercavam e a encurralavam para a multidão, agora os pés ainda sem cabeça moviam o corpo para a avenida.

Parada, entre os carros, tinha um único anseio: que alguém lhe estendesse a mão; um anseio tão ingênuo, porém perdoa-se, afinal era uma criança; não obtendo respostas deu um passo à frente. Olhares complacentes eram agora a ela lançados, o intenso fluxo convergia agora em sua direção, mãos eram agora estendidas e a ajuda tão esperada era agora em vão.

Juliana Roma e Alessandra Roma