terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Noite no apartamento

O apartamento de segundo andar, um lar sombrio de segredos, estava quase ao leito do abandono. Fazia dois dias que não ia ao apartamento. Aguardando como um cego que aguarda os olhos, que por mais que venham não são seus, enquanto isso seu dono acabara de chegar de mais uma noite de bebida e marginalidade, dessa vez ainda estava sóbrio, seja por acaso, ou se por acaso ele tiver se cuidado.
Ele subiu as escadas do pequeno prédio, era de clara dúvida quem era mais soturno, as escadas, ou aquela aparição. Nunca usava o elevador, gostava de andar, refletir e sentir-se subindo em todos os âmbitos, gradativamente. Chegou ao apartamento e quase bateu na porta como quem desejasse que alguém de dentro abrisse, mas não havia mais que ratos dentro. Entrou sozinho, como se entra num coração, sozinho.

Tirou sua jaqueta, jogou no sofá, o apartamento era extremamente sombrio e pequeno, momento algum ele acendia as luzes. Não gostava de luzes, não havia ninguém para se ver, ninguém para se compartilhar uma luz. Ratos? Ele não era afetivo com aqueles que usavam suas sobras. Foi direto sentar-se na janela do quarto de dormir. Lá ele podia ver a rua, e a todos dela, sentir-se no mundo, mesmo que seja só como um observador passivo. Para ele, já é ativa essa atitude tangente.

Viu uma igreja cantante naquela noite calma, onde os credores se desgostavam para gostar de Deus, a igreja e os fiéis destoavam naquela paisagem e perturbavam a noite senil, faziam turbilhões e permitiam dores noturnas. Mas a noite, sempre calma, clamava muda pelo rachar das igrejas. Na rua poucos malditos se descuidavam, já era tarde. Quem nessas horas se aventuraria por este bairro? Os ingênuos? As vítimas? Vale lembra-se dos marginais que brotam do inchaço urbano. Ele era acostumado com isso, não queria mais se constranger com tais mesquinharias.

Depois de longa fúnebre admiração da noite, se deslocou da janela, e na eterna escuridão de seu quarto trocou de camisa. Estava disposto a ir dormir, ele odiava quando seus momentos tediosos na janela levavam-no a pensamentos moribundos e traiçoeiros. Difícil entender esse temor, ele mesmo toda noite se dirigia à janela. De súbito, sem se assustar ou muito estranhar, como se já sentisse o chamado, escutou um grito forte da rua dizendo raivosamente: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”. Quem haveria de ser? Mais um marginal desafiante? Outro prestador de contas? Um vitimado de adultério que deseja duelar sua honra? Não, duelistas já não existem, com certeza apenas um marginal corajoso e vingativo. Olhou escondido de relance, pela janela, nem precisava, sabia que era ele que o estranho chamava, mas viu no meio da rua, de camisa cavada, iluminado pelos postes tenebrosos, o estranho que o chamava.

Saiu de manso do quarto, queria que não percebesse o seu deslocar, talvez tenha feito isso por costume de alguém sorrateiro. Enquanto isso ainda ouvia os gritos do desafiante. Quando fora do quarto, foi correndo frenético, saiu do apartamento, até deixou a porta aberta. Ninguém roubaria seu apartamento, o que iriam roubar? Roupas gastas? Livros rasgados? Correu alucinado, pegou o elevador sucateado e antes tarde, saiu do prédio e foi à rua, na noite clara, ao encontro de seu desafiante. Chegou a se atordoar com a mudança de luminosidade, a rua, devido aos acesos postes, era ligeiramente mais iluminada que seu prédio de desalmados. Mas não se constrangeu, ele só queria aturdido rebentar em combate com o estranho que lhe chamara.

Mas o quê? Não havia ninguém! Como não havia ninguém? O covarde fugiu? Não desceu do apartamento a tempo? A rua cinzenta, a igreja agonizante, as casas observadoras e falsárias, estavam todas vazias. Mesmo noite, os postes o iluminavam-no como num grande picadeiro, estava no centro, iluminado, focado, como nunca havia sido antes.

Viu então, num deslumbrar, como num presságio, ou como num aviso, viu o prédio velho, seu andar desolado, seu apartamento taciturno, a janela, a maldita janela de seu quarto, perpétuo escuro, perpétuo companheiro de solidão. Então, como se já fosse premeditado, como se já fosse profetizado, ele gritou: “Apareça! Sei que está aí, dê as caras, covarde, me enfrente!”.

Felipe Barbosa

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