Enquanto o fogo quente e cru
Das cinzas queimam-me o olhar.
Peço para que, ao menos no bar,
O senhor fique quieto. Mas tu...
Falando-me da mesma mulher,
Pergunta-me, ao som do luthier:
"É mesmo ela que você quer?"
Ó... meu amigo, meu caro...
Eu já nem sei que é querer.
Se isso mo fosse tão claro,
Se eu soubesse o que quero,
O senhor pode ter certeza
Que subiria naquela mesa
E lhe cantaria um bolero.
Elliot Scaramal
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Soneto
Se perguntar-me curiosa, ao acaso,
O que há no apartamento ao lado,
Suspirando, com pesar, enfadado,
Após tragar, dir-te-ei um triste caso:
Um homem vive lá, com descaso,
Traz hora ou outra, bem camuflado,
Moças crianças, de vestido ajeitado,
Vão pra Europa depois de um prazo.
Como as consegue? Se ele as obriga?
Atuações piegas, poemas obsoletos...
Não sei hoje, mas assim as iludia.
Sobre teu anseio, saiba minha amiga
Que possuem catorze versos, os sonetos,
E que um final feliz aqui, não caberia.
Felipe Barbosa
O que há no apartamento ao lado,
Suspirando, com pesar, enfadado,
Após tragar, dir-te-ei um triste caso:
Um homem vive lá, com descaso,
Traz hora ou outra, bem camuflado,
Moças crianças, de vestido ajeitado,
Vão pra Europa depois de um prazo.
Como as consegue? Se ele as obriga?
Atuações piegas, poemas obsoletos...
Não sei hoje, mas assim as iludia.
Sobre teu anseio, saiba minha amiga
Que possuem catorze versos, os sonetos,
E que um final feliz aqui, não caberia.
Felipe Barbosa
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Rastejo de um perdido
E o sol radiante no céu castigava o homem na terra. Ele que rastejava e levantava, sofria com sua carne nua torrando na terra de ninguém. A dança era ritmada, caía e quando a pele sangrava, ele levantava e a passos lentos chegava-se a lugar nenhum. Se o sol pairasse em outra direção a história seria alegre, mas como estávamos no sertão nordestino, o sol, aquela bola de fogo do inferno, batia e fazia sangrar a pobre cobra do sertão.
O diabo era ele, as pedras faziam o papel de homens castigados, porém esse inferno era na verdade um circo já que as pedras é quem castigavam o demônio da terra de ninguém. Essas pedras que entravam nos ferimentos do pobre diabo faziam-no delirar de dor e o chão áspero arrancava o coro do homem, era um verdadeiro inferno de sofrimento. Seus pés não suportavam carregar aquele corpo delgado e num instante já estava o verme novamente rastejando. As pedras pareciam rir dele e quando isso ocorria, à fúria do demônio vinha à tona e o inferno tremia; ele gritava, xingava e chutava tudo que via pela frente e na sua frente só havia as pobres pedras.
Queria chegar a algum lugar, mas só havia como seguir em frente e a sua frente não havia nada a não ser mais terra pra engolir, a raiva já era evidente e o sangue empoçava a cada rastejo da cobra lerda. Ele chorava, o desespero era evidente, tinha que encontrar alguma coisa e rápido. Ele tentava correr, mas caía em seguida e então se arrastava o mais rápido possível, a carne exposta já não agüentava mais.
Foi quando avistou um vazio, a estrada não continuava mais; pensara então ter chegado ao seu destino e então ele soltou um grito de vitória, como se diabos ganhassem alguma coisa. A dor já não sentia e então se arrastava mais rápido a fim de chegar primeiro, como se estivesse competindo com alguém, mas não havia ninguém, aquele inferno era só dele. Então chegando à beira do buraco, ele vê o precipício e agora sem esperança de nada ele se torna o rei daquele inferno.
Aquele anjo só queria chegar em casa, pra salvar sua família; ele estava com o dinheiro e eles não iriam precisar serem despejados e andar que nem ele estava andando a minutos a trás. O roubo muitas vezes não significa nada pra alguns, mas é a vida de outros.
Juliana Roma
O diabo era ele, as pedras faziam o papel de homens castigados, porém esse inferno era na verdade um circo já que as pedras é quem castigavam o demônio da terra de ninguém. Essas pedras que entravam nos ferimentos do pobre diabo faziam-no delirar de dor e o chão áspero arrancava o coro do homem, era um verdadeiro inferno de sofrimento. Seus pés não suportavam carregar aquele corpo delgado e num instante já estava o verme novamente rastejando. As pedras pareciam rir dele e quando isso ocorria, à fúria do demônio vinha à tona e o inferno tremia; ele gritava, xingava e chutava tudo que via pela frente e na sua frente só havia as pobres pedras.
Queria chegar a algum lugar, mas só havia como seguir em frente e a sua frente não havia nada a não ser mais terra pra engolir, a raiva já era evidente e o sangue empoçava a cada rastejo da cobra lerda. Ele chorava, o desespero era evidente, tinha que encontrar alguma coisa e rápido. Ele tentava correr, mas caía em seguida e então se arrastava o mais rápido possível, a carne exposta já não agüentava mais.
Foi quando avistou um vazio, a estrada não continuava mais; pensara então ter chegado ao seu destino e então ele soltou um grito de vitória, como se diabos ganhassem alguma coisa. A dor já não sentia e então se arrastava mais rápido a fim de chegar primeiro, como se estivesse competindo com alguém, mas não havia ninguém, aquele inferno era só dele. Então chegando à beira do buraco, ele vê o precipício e agora sem esperança de nada ele se torna o rei daquele inferno.
Aquele anjo só queria chegar em casa, pra salvar sua família; ele estava com o dinheiro e eles não iriam precisar serem despejados e andar que nem ele estava andando a minutos a trás. O roubo muitas vezes não significa nada pra alguns, mas é a vida de outros.
Juliana Roma
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
O homem que teve um filho
João honrava seu nome genérico, tinha cara de domingo. Sob todo seu corpo, escasso de melanina, em mor parte, exposto, se alastravam penugens negras, que se contrastavam às desbotadas da cabeça. Em suma, sua fisionomia de pêra não agradava as fêmeas vistosas. Morava só, no deserto claustro do subúrbio goiano. Tinha um passatempo peculiar: em todas as suas folgas (não poucas para quem se sustenta em bicos) rumava ao centro gris da cidadela e servia-se de uma caixa quente de cerveja, negociada a favores. Em uma dessas habituais recreações, irrompeu, do sereno nada das ruelas sinuosas e silentes, que, abandonadas ao sol quente, servem de anteparo à luz, que bate e reflete em um eterno fulgor matinal, uma moça matura das curvas forçadas e do batom rubro-sangue, co’uns decotes sugestivos, ainda que de peitos avaros. Sentou-se, realçando as abundâncias de coxas que, contudo, trocando em miúdos, não compensavam a falta de peito. Acendeu um cigarro. Os olhos inundos em vasos vermelhos impunham vulnerabilidade. Começaram a altercar alguns assuntos reles. A moça loura (como se toda loura fosse bonita...) atirava, ao ar, quanta e mais quanta, de libido vaginal, que se homogeneizavam às conversas dos dois. A mulher pulou ao colo do nosso herói e clamou, ofegante:
- Trepa comigo?
Vou dar-me ao regalo de privar-me da descrição das expressões de João. O fato é que: eles treparam. Sim, ali mesmo... Ó, leitor... Por favor... Poupe-me desses assombros hipócritas.
O evento desvaneceu-se pela vida de João, que, tendo tempo para estudar o fato, não conseguia discernir se fora um sonho ou um acontecimento concreto. João parou de beber.
Mas qualquer aspiração de tédio que poderia pairar sobre aquela vida ordinária, foi anulado quando, alguns anos depois, este recebeu uma missiva. Era grande demais para um bilhete e curta demais para uma carta. Fora grafada com todos os erros ortográficos possíveis. O conteúdo era gélido. Sem perfumes ou doces (e nauseantes) marcas de beijos.
Enfim, João não os saberia apreciar, de qualquer modo (este personagem é um orgulho que tenho). Esta missiva tratava de uma enorme desgraça: Um filho!
João não teve, nunca, tempo de cogitar se queria ou não um filho. Era inútil agora. A notícia lhe alagava o bucho em soluções ácidas dolorosas.
O cancro deveria chegar ao domingo, e viria só, a mãe preferia não manter contato.
Para que não tenha que narrar a rotina deplorável do nosso protagonista até lá, saltarei até a chegada do garoto. (quem foi capaz de deduzir que este foi um pretexto para acelerar o conto, ganha um parabém).
O garoto desembarcou do ônibus, João o esperava, sonolento e mal-barbeado, foi a custo. O pequerrucho era feio como o capeta, nem gordo nem magro, sem índole alguma. Logo que João percebeu o crachá do menino, pesquisou alguns índices que validariam a hipótese de que aquele não era seu filho. Fado cruel.
O menino era idêntico a João.
- Oi, você é meu pai?
- Não...
- Então você é o quê?
- Sou amigo da sua mãe, ela me pediu para que eu cuidasse de você.
Na sua candura manteigosa, a peste suspirou satisfatoriamente. Foram para casa.
- Como eu é que eu posso te chamar?
- Não me chame.
- Tá bom...
O menino se consternou. João não se importou.
- Quê que tem pra comer?
- Nada!
- Nem leite com café?
- Não!
- Nem...
- Não! Já disse que não, praga!
João se levantou.
- Onde você vai?
- No banheiro. Vai ficar me vigiando agora?
João trancou-se no quarto. Respirava agressivamente. Quando saiu... O moleque o aguardava com os olhinhos imbecis desamparados.
- Por que você tava aí? Você disse que ia no banheiro. Aí não é o banheiro. Por que você não foi no banheiro?
- Puta que pariu. Você fala demais. Olha menino... – disse possesso, entregando alguma quantia de guardanapos e uma caneta que conseguiu em uma antiga campanha política – Se eu arranjar uma ocupação pra você, você me deixa em paz?
- E quê que eu vô fazer com isso?
- Vai desenhar.
- Mas...
Tentou balbuciar, deixando escapar uma lágrima. João correu para o quarto e, como se o tempo fugisse, as semanas passaram ligeiramente: João fugindo de sua cria, e o bicho, na sala, rabiscando. Ambos se alimentando de uma dieta de comida de bar.
João voltou a beber. Isso não deveria ser uma surpresa. O menino só engordava.
Cada mísero minuto que João passava fitando aquele menino feio, desgraçadamente semelhante a ele, era o esboroamento de qualquer esperança. A presença do menino era a ausência da mãe. A nulidade completa de prazer. João já havia cumprido seu papel com a natureza, agora ela não precisava mais dele.
O menino era a flacidez da carne de seu pênis, tristonha e lânguida. Cheirava a hormônio seco. Abriu um conhaque e sorveu alguns goles frouxos. Aquela massa de matéria orgânica transmutou-se na epítome do desprazer. A lástima de sua vida. Por meses assimilou uma idéia... Mas era abstrata demais.
Não obstante, esta idéia não fugiu-lhe à mente. Tornara-se fixa. E por tempos e tempos, João regurgitou a idéia. Não, o esquecimento não é uma vis inertae.
- Menino... Vem aqui pro quarto.
- Pra quê, João?
- Vem aqui.
O menino entrou, desatento no quarto, com o semblante idiota de qualquer criança, perpetuamente boquiaberto, de olhos líquidos e estáticos. João sacou, com os olhos apaixonados, um martelo de carne, e golpeou o crânio da criança, esmagando-o. O defunto tombou ao chão. Os músculos gritavam por outro golpe, em uma agonia formigante de êxtase. As mãos tremiam, deliberadamente. O falo enrijeceu. Sucumbiu ao chão, banhando-se do sangue da caça. Cada receptor neural palpitava em excitação. O plasma era um mar de dopamina. As pupilas, dilatadas, embevecidas em repleção animal, contemplavam o magnífico, o esplêndido, o sublime, odor fresco de liberdade.
Elliot Scaramal
- Trepa comigo?
Vou dar-me ao regalo de privar-me da descrição das expressões de João. O fato é que: eles treparam. Sim, ali mesmo... Ó, leitor... Por favor... Poupe-me desses assombros hipócritas.
O evento desvaneceu-se pela vida de João, que, tendo tempo para estudar o fato, não conseguia discernir se fora um sonho ou um acontecimento concreto. João parou de beber.
Mas qualquer aspiração de tédio que poderia pairar sobre aquela vida ordinária, foi anulado quando, alguns anos depois, este recebeu uma missiva. Era grande demais para um bilhete e curta demais para uma carta. Fora grafada com todos os erros ortográficos possíveis. O conteúdo era gélido. Sem perfumes ou doces (e nauseantes) marcas de beijos.
Enfim, João não os saberia apreciar, de qualquer modo (este personagem é um orgulho que tenho). Esta missiva tratava de uma enorme desgraça: Um filho!
João não teve, nunca, tempo de cogitar se queria ou não um filho. Era inútil agora. A notícia lhe alagava o bucho em soluções ácidas dolorosas.
O cancro deveria chegar ao domingo, e viria só, a mãe preferia não manter contato.
Para que não tenha que narrar a rotina deplorável do nosso protagonista até lá, saltarei até a chegada do garoto. (quem foi capaz de deduzir que este foi um pretexto para acelerar o conto, ganha um parabém).
O garoto desembarcou do ônibus, João o esperava, sonolento e mal-barbeado, foi a custo. O pequerrucho era feio como o capeta, nem gordo nem magro, sem índole alguma. Logo que João percebeu o crachá do menino, pesquisou alguns índices que validariam a hipótese de que aquele não era seu filho. Fado cruel.
O menino era idêntico a João.
- Oi, você é meu pai?
- Não...
- Então você é o quê?
- Sou amigo da sua mãe, ela me pediu para que eu cuidasse de você.
Na sua candura manteigosa, a peste suspirou satisfatoriamente. Foram para casa.
- Como eu é que eu posso te chamar?
- Não me chame.
- Tá bom...
O menino se consternou. João não se importou.
- Quê que tem pra comer?
- Nada!
- Nem leite com café?
- Não!
- Nem...
- Não! Já disse que não, praga!
João se levantou.
- Onde você vai?
- No banheiro. Vai ficar me vigiando agora?
João trancou-se no quarto. Respirava agressivamente. Quando saiu... O moleque o aguardava com os olhinhos imbecis desamparados.
- Por que você tava aí? Você disse que ia no banheiro. Aí não é o banheiro. Por que você não foi no banheiro?
- Puta que pariu. Você fala demais. Olha menino... – disse possesso, entregando alguma quantia de guardanapos e uma caneta que conseguiu em uma antiga campanha política – Se eu arranjar uma ocupação pra você, você me deixa em paz?
- E quê que eu vô fazer com isso?
- Vai desenhar.
- Mas...
Tentou balbuciar, deixando escapar uma lágrima. João correu para o quarto e, como se o tempo fugisse, as semanas passaram ligeiramente: João fugindo de sua cria, e o bicho, na sala, rabiscando. Ambos se alimentando de uma dieta de comida de bar.
João voltou a beber. Isso não deveria ser uma surpresa. O menino só engordava.
Cada mísero minuto que João passava fitando aquele menino feio, desgraçadamente semelhante a ele, era o esboroamento de qualquer esperança. A presença do menino era a ausência da mãe. A nulidade completa de prazer. João já havia cumprido seu papel com a natureza, agora ela não precisava mais dele.
O menino era a flacidez da carne de seu pênis, tristonha e lânguida. Cheirava a hormônio seco. Abriu um conhaque e sorveu alguns goles frouxos. Aquela massa de matéria orgânica transmutou-se na epítome do desprazer. A lástima de sua vida. Por meses assimilou uma idéia... Mas era abstrata demais.
Não obstante, esta idéia não fugiu-lhe à mente. Tornara-se fixa. E por tempos e tempos, João regurgitou a idéia. Não, o esquecimento não é uma vis inertae.
- Menino... Vem aqui pro quarto.
- Pra quê, João?
- Vem aqui.
O menino entrou, desatento no quarto, com o semblante idiota de qualquer criança, perpetuamente boquiaberto, de olhos líquidos e estáticos. João sacou, com os olhos apaixonados, um martelo de carne, e golpeou o crânio da criança, esmagando-o. O defunto tombou ao chão. Os músculos gritavam por outro golpe, em uma agonia formigante de êxtase. As mãos tremiam, deliberadamente. O falo enrijeceu. Sucumbiu ao chão, banhando-se do sangue da caça. Cada receptor neural palpitava em excitação. O plasma era um mar de dopamina. As pupilas, dilatadas, embevecidas em repleção animal, contemplavam o magnífico, o esplêndido, o sublime, odor fresco de liberdade.
Elliot Scaramal
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