terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O homem que teve um filho

João honrava seu nome genérico, tinha cara de domingo. Sob todo seu corpo, escasso de melanina, em mor parte, exposto, se alastravam penugens negras, que se contrastavam às desbotadas da cabeça. Em suma, sua fisionomia de pêra não agradava as fêmeas vistosas. Morava só, no deserto claustro do subúrbio goiano. Tinha um passatempo peculiar: em todas as suas folgas (não poucas para quem se sustenta em bicos) rumava ao centro gris da cidadela e servia-se de uma caixa quente de cerveja, negociada a favores. Em uma dessas habituais recreações, irrompeu, do sereno nada das ruelas sinuosas e silentes, que, abandonadas ao sol quente, servem de anteparo à luz, que bate e reflete em um eterno fulgor matinal, uma moça matura das curvas forçadas e do batom rubro-sangue, co’uns decotes sugestivos, ainda que de peitos avaros. Sentou-se, realçando as abundâncias de coxas que, contudo, trocando em miúdos, não compensavam a falta de peito. Acendeu um cigarro. Os olhos inundos em vasos vermelhos impunham vulnerabilidade. Começaram a altercar alguns assuntos reles. A moça loura (como se toda loura fosse bonita...) atirava, ao ar, quanta e mais quanta, de libido vaginal, que se homogeneizavam às conversas dos dois. A mulher pulou ao colo do nosso herói e clamou, ofegante:
- Trepa comigo?
Vou dar-me ao regalo de privar-me da descrição das expressões de João. O fato é que: eles treparam. Sim, ali mesmo... Ó, leitor... Por favor... Poupe-me desses assombros hipócritas.
O evento desvaneceu-se pela vida de João, que, tendo tempo para estudar o fato, não conseguia discernir se fora um sonho ou um acontecimento concreto. João parou de beber.
Mas qualquer aspiração de tédio que poderia pairar sobre aquela vida ordinária, foi anulado quando, alguns anos depois, este recebeu uma missiva. Era grande demais para um bilhete e curta demais para uma carta. Fora grafada com todos os erros ortográficos possíveis. O conteúdo era gélido. Sem perfumes ou doces (e nauseantes) marcas de beijos.
Enfim, João não os saberia apreciar, de qualquer modo (este personagem é um orgulho que tenho). Esta missiva tratava de uma enorme desgraça: Um filho!
João não teve, nunca, tempo de cogitar se queria ou não um filho. Era inútil agora. A notícia lhe alagava o bucho em soluções ácidas dolorosas.
O cancro deveria chegar ao domingo, e viria só, a mãe preferia não manter contato.
Para que não tenha que narrar a rotina deplorável do nosso protagonista até lá, saltarei até a chegada do garoto. (quem foi capaz de deduzir que este foi um pretexto para acelerar o conto, ganha um parabém).
O garoto desembarcou do ônibus, João o esperava, sonolento e mal-barbeado, foi a custo. O pequerrucho era feio como o capeta, nem gordo nem magro, sem índole alguma. Logo que João percebeu o crachá do menino, pesquisou alguns índices que validariam a hipótese de que aquele não era seu filho. Fado cruel.
O menino era idêntico a João.
- Oi, você é meu pai?
- Não...
- Então você é o quê?
- Sou amigo da sua mãe, ela me pediu para que eu cuidasse de você.
Na sua candura manteigosa, a peste suspirou satisfatoriamente. Foram para casa.
- Como eu é que eu posso te chamar?
- Não me chame.
- Tá bom...
O menino se consternou. João não se importou.
- Quê que tem pra comer?
- Nada!
- Nem leite com café?
- Não!
- Nem...
- Não! Já disse que não, praga!
João se levantou.
- Onde você vai?
- No banheiro. Vai ficar me vigiando agora?
João trancou-se no quarto. Respirava agressivamente. Quando saiu... O moleque o aguardava com os olhinhos imbecis desamparados.
- Por que você tava aí? Você disse que ia no banheiro. Aí não é o banheiro. Por que você não foi no banheiro?
- Puta que pariu. Você fala demais. Olha menino... – disse possesso, entregando alguma quantia de guardanapos e uma caneta que conseguiu em uma antiga campanha política – Se eu arranjar uma ocupação pra você, você me deixa em paz?
- E quê que eu vô fazer com isso?
- Vai desenhar.
- Mas...
Tentou balbuciar, deixando escapar uma lágrima. João correu para o quarto e, como se o tempo fugisse, as semanas passaram ligeiramente: João fugindo de sua cria, e o bicho, na sala, rabiscando. Ambos se alimentando de uma dieta de comida de bar.
João voltou a beber. Isso não deveria ser uma surpresa. O menino só engordava.
Cada mísero minuto que João passava fitando aquele menino feio, desgraçadamente semelhante a ele, era o esboroamento de qualquer esperança. A presença do menino era a ausência da mãe. A nulidade completa de prazer. João já havia cumprido seu papel com a natureza, agora ela não precisava mais dele.
O menino era a flacidez da carne de seu pênis, tristonha e lânguida. Cheirava a hormônio seco. Abriu um conhaque e sorveu alguns goles frouxos. Aquela massa de matéria orgânica transmutou-se na epítome do desprazer. A lástima de sua vida. Por meses assimilou uma idéia... Mas era abstrata demais.
Não obstante, esta idéia não fugiu-lhe à mente. Tornara-se fixa. E por tempos e tempos, João regurgitou a idéia. Não, o esquecimento não é uma vis inertae.
- Menino... Vem aqui pro quarto.
- Pra quê, João?
- Vem aqui.
O menino entrou, desatento no quarto, com o semblante idiota de qualquer criança, perpetuamente boquiaberto, de olhos líquidos e estáticos. João sacou, com os olhos apaixonados, um martelo de carne, e golpeou o crânio da criança, esmagando-o. O defunto tombou ao chão. Os músculos gritavam por outro golpe, em uma agonia formigante de êxtase. As mãos tremiam, deliberadamente. O falo enrijeceu. Sucumbiu ao chão, banhando-se do sangue da caça. Cada receptor neural palpitava em excitação. O plasma era um mar de dopamina. As pupilas, dilatadas, embevecidas em repleção animal, contemplavam o magnífico, o esplêndido, o sublime, odor fresco de liberdade.

Elliot Scaramal

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