domingo, 14 de dezembro de 2008

Branco, vermelho e preto

Um vadio. Velho vadio. Muita idade e pouca ocupação. Duplamente vadio. Vadio por ser velho vadio por ser escritor. Vendia a realidade para pessoas que pouco entendiam da vida. Vendia uma maquiagem perfeita da vida, maquiagem essa que nunca fizera parte se seu ser. Vendia fantasia para comprar realidade. Cabeleira branca, pouco cuidada, com grandes entradas, mas se até agora a calvície não o pegara, não seria no fim da vida que os cabelos dar-se-iam ao capricho de cair. Nariz grande, batatudo, grande e rosado. Rugas, muitas rugas, davam-lhe a graça. Um belo par de dentaduras, uma para o meio de semana, outra para o fim de semana. Magro e branco. Quase não saia de casa. Escrevia, só escrevia. Velho, lerdo e besta, fechou-se para si e o si era velho.

Caneta e papel em branco compunham o seu dia. A história começa de manhã, juntamente com o seu copo de café papel branco, café preto e a caneta vermelha. Sua mão pega nas três coisas, sua mão com cheiro de café, manchada de vermelha encosta no papel branco e compõe a história. Cores de circo, cores de palhaço, era sim uma história maquiada com as melhores pinturas, a alegria, a fantasia. O barulho do lado de fora não o incomodava, a realidade pulsante e perigosa era amenizada por sonhos criados e vendidos. O velho era só e só vivia para ser velho. O medo de abrir a porta e sua velhice ser levada, o fizera trancar-se dentro de sua casa e então só sonhar em suas belas criações de realidades fantasiadas. As pessoas compravam suas obras e roubavam a sua realidade. Dessa forma todos sonhavam a mesma coisa e o ritmo da vida era parado só para ele.

À tarde outra história. O último papel branco, a caneta vermelha e agora o vinho tinto, compunham sua nova fantasia. O cheiro do vinho era mais brando do que o do café. História trazia o céu, o mar e o infinito do ser, que no momento estava reduzido a uma casa fechada e cercada por paredes. O sonho da liberdade de viver, a brandura dessa fantasia contrastava com o que se passava da porta pra fora. O papel acaba, mas o sonho da historia não. Resolve abrir a porta e sair pra pegar mais papel. Destranca a porta que a muito não era aberta, a maçaneta enferrujada temia em abrir, a velhice besta, lerda tem medo de ser levado pela realidade do lado de fora, mas enfim a porta é aberta e ouve-se um barulho que a muito já era escutado. Ao mesmo tempo uma criança cai em seus pés, ele a olha. A criança nova, com cabeleira escura, narizinho humilde. A criança que parecia estar brincando, agora estava caída nos pés brancos do velho lerdo. O vermelho do sangue no chão, os pés brancos do besta que compunha histórias para serem vendidas e o cinza do chão faziam uma nova história, mas essa com certeza era real, sem maquiagens ou invenções de uma mente velha. Esse era o real que ele tanto temia. Volta pra dentro da casa, fecha-a e agora sim nunca mais iria abri-la. Velho egoísta, velho medroso, nunca mais escreveria. O papel branco acabara a tinta vermelha secara e o vinho ainda embebeda o velho vadio.

Juliana Roma

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