Sabe quando você não sabe que rumo tomar, mas você sabe que o caminho que está percorrendo é o errado? Então; era nisso que ele passava as tardes pensando ou pelo menos aquela tarde. A verdade é que ele estava insatisfeito, tudo estava desagradável. O trabalho era ruim e estudar para conseguir um emprego melhor era uma péssima idéia na condição em que se encontrava.
Eu não estava numa situação muito melhor que a de meu amigo; os dois desiludidos com a vida que estávamos levando, caminhávamos por horas sem dizer uma palavra um ao outro, cada um mergulhado em seu tormento. No fim de cada caminhada sentávamos em um bar, o dono do estabelecimento, nosso amigo, sentava conosco e nos escutava, escutava cada reclamação e pessimismo e digo que não eram poucos. A verdade é que reclamávamos demais e hoje posso dizer isso com a maior certeza. Nosso amigo, o dono do barzinho, sempre paciente, dizia sempre a mesma coisa, talvez por desprezo, talvez por não ter nada pra dizer mesmo, mas hoje acho que ele sentia angústia de nos ver naquela mísera situação; por isso falava sempre a mesma coisa, tentando fazer com que nós absorvêssemos aquela idéia, a frase era assim: “ A única coisa que vocês precisam é de um sonho, um motivo pra tocar a vida”.
Ah, na hora em que ele dizia isso nós dois já estávamos muito bêbados, e nada mais entrava em nossa cabeça, capaz que aquela altura nem escutássemos mais, tamanha era a bebedeira. Essa frase sempre passava despercebida e quem sabe por isso não tomamos vergonha e encaramos a vida a tempo dos dois serem salvos. O fato é que cada palavra dita ecoava no bar, ninguém dava a menor importância aos três bêbados.
A situação de meu amigo era péssima e naquela tarde por mais que caminhássemos nada amenizava nosso desinteresse por nossas vidas. Confesso que já estava caindo em tentação pelo conformismo, para mim não havia nada melhor que entender a situação e “vivê-la”. Mas não, meu amigo dizia que esse pensamento era pra quem não tinha “sangue correndo nas veias”, que melhor que outros ditarem sua vida seria dar um fim a ela. Foi ai que perguntei se ele realmente tava disposto a fazer isso; e como alguém que finge não te ouvir ou entender, ele me indagou: fazer o quê?
- Nada não, esquece. Nessa hora vi que ele não estava levando avante aquela idéia; isso confesso, que me deixou instigado, com raiva, não entendi o motivo pra ele me dizer aquelas palavras se não fosse pra ele mesmo cumpri-las. Fiquei pensando se ele estava com a intenção de me manipular, de fazer com que eu morresse. O meu ódio por ele foi crescendo. Ingrato, sempre dei o melhor de mim pra nossa amizade e agora ele me vem com essa idéia obscura de me matar. Miserável! Não ele não tinha o direito de me dizer aquilo, à medida que eu só queria não mais ser solitário e preso em meus pensamentos, e não em um sonho, um futuro.
Bem, naquela tarde tomado dessa raiva, percebi que meu amigo não tirou as mãos dos bolsos desde que chegamos ao bosque e não parava de apalpar o bolso esquerdo, justo o que estava ao meu lado. Não agüentei e perguntei o que ele tinha na mão esquerda; não houve resposta; o que só aumentou minha ira. Comecei então a observar, tinha mais ou menos uns cinco centímetros e com certeza tinha uma ponta, disso tenho completa certeza já que tão absorto em seus pensamentos meu amigo chegou a furar seu bolso. Seria então um canivete? Essa idéia não me saiu da cabeça. Ele iria mesmo me matar? E seria hoje? Pensei em ir embora, mas ele com certeza acharia estranho e poderia assim mesmo ir me visitar em minha casa e do mesmo modo me assassinar. Decidi então ficar e encará-lo, se viesse pra cima de mim, nós iríamos lutar, feito dois selvagens.
Agora ele segurava com força o objeto e pra minha surpresa começou a chorar, sentou-se no banco e dado de incompreensão também me sentei; não tirei os olhos de seu bolso, que continuava ao meu lado. Ele então passou a falar e falar, sem pausas; um pensamento recitado em voz alta com certeza, talvez pra tentar organizar as idéias; foi quando uma palavra me chamou a atenção “morte”, “morte”, repetia isso constantemente. A minha ou a sua? Era tudo tão incompreensível, suas palavras, seu choro, seu desespero. Não queria ouvir mais nada e suas ultimas palavras daquele pensamento ridículo foram: O foi torna a ser, o que é pede existência, o palpável é nada, o nada assume essência. Nessa hora soquei-lhe a cara, arranquei o canivete de seu bolso; sim era um canivete! E minhas palavras foram: Se alguém é pra morrer aqui que seja você, seu miserável!
E antes de morrer ele ainda me disse: Obrigado, meu amigo, me faltava coragem para tal feito, sabia que podia contar com você; só não se esqueça agora das palavras de nosso amigo do bar! Que palavras? Do que estava falando? Pensei que fosse um bêbado resmungão igual a nós. E percebendo um tom interrogativo em minha face ele repetiu a frase do bêbado.
Agora eu, preso nessa cela, pensando naquela frase do sonho, decidi voltar a criar meus sonhos, entendi minha situação. Agora posso viver meus sonhos, encontrei meu lugar e que lindo que é sonhar só me custa tempo e tempo aqui eu tenho de sobra. Agora sou alguma coisa e perdi minha existência, vivo do nada e faço do nada minha essência.
Juliana Roma

Nenhum comentário:
Postar um comentário